sábado, 8 de junho de 2013

É COMPLICADO!

Há muito tempo que estava querendo publicar um post sobre o conceito de “complicado” que ouço por aí. Bem lá vai...

A primeira consideração que queria colocar neste post é que mesmo que as pessoas pensem que o a palavra complicado significa algo que não dá pé, na verdade considero tal palavra com sendo um convite desafiador para que nos renovemos constantemente nas nossas ações cotidianas, inclusive em sala de aula. Quero dizer com isso que o conceito de complicado que usamos ultimamente não é o conceito correto e não quer dizer o que realmente a palavra quer dizer. Isso se deve ao fato que muitas vezes buscamos certas desculpas que não condizem com a realidade de nossos alunos, pois acreditamos que fazemos a nossa parte. Se fizermos a nossa parte, então podemos descansar tranquilamente à noite. O problema que a coisa não deveria ser pensada de tal modo.

Imagine que você está dentro de uma sala de aula com trinta adolescentes com os hormônios estourando e que você deve transmitir o conhecimento que tens a eles. Nenhum aluno está prestando atenção em você. Ninguém quer saber de matemática, física e se você for professor de filosofia, você percebe que a situação se complica ainda mais por causa do descrédito e preconceito institucionalizado na nossa sociedade – só agora é que estão surgindo políticas que tratam do ensino de filosofia –(olha só o nosso termo aparecendo aqui novamente XD). A questão é que muitas vezes nos escondemos atrás desse termo e o significamos como algo impossível. A palavra complicada, quando usada, pontua a existência de algo difícil de ser feito. Isso não quer dizer que as atividades que você propõe sejam impossíveis de serem feitas. A desculpa é sempre a mesma: eles não querem nada com nada. Infelizmente alguns professores pensam assim. Eu já tive professores com esse tipo de pensamento, todo mundo já teve. Numa das escolas onde eu estudei (ainda bem que fiquei somente um ano), tinha uma professora que lançava a seguinte máxima: “Esse aí é irmão do Fulano. O Fulano parou de estudar na quinta série, não é ninguém, vive vendendo droga... esse daí vai seguir o mesmo caminho, por isso não preciso me preocupar com ele!”. Bem hoje o irmãozinho do Fulano tá fazendo faculdade, não sei do que, mas está fazendo (não é a faculdade do crime!, faculdade mesmo!!!). A teoria da hereditariedade genética que essa pessoa que se diz educadora não passou despercebida por mim, pois achava um absurdo desde aquela época de ensino fundamental. Continuando o restante desse pensamento ridículo e preconceituoso ela dizia: “Eu tentei explicar ao irmãozinho do Fulano, mas ele nunca me ouviu, esse daí também não ouve, é complicado lidar com gente assim!”.  Outra vez a palavra complicada aparece como sinônimo de impossibilidade.

Certa vez estava eu e a minha irmã num jantar de comemoração de término de mestrado de uma amiga minha. Essa minha amiga também tinha uma amiga que é professora da educação infantil. Acho que fiquei tão complexada com essa situação que eu acabei pegando a mania de testar as outras pessoas. Comecei a conversar com ela sobre educação. Daí comentei que a professora da FACED disse que devemos analisar a turma e que havia coisas que poderíamos fazer com tal turma e com outras não porque era complicado de ser feito (claro, tudo mentira: nunca ouvi isso), e o pior ainda, disse que concordava. A cara que a guria fez foi de revolta. É sério, nunca vi uma educadora tão revoltada com uma besteira dessas, e ainda bem que ela é revoltada com esse tipo de fala! Fiquei muito feliz de descobrir que existem pessoas que não pensam desse jeito manipulador e triste. Claro, passei por uma completa abobada... mas enfim, gostei de saber que ela tinha passado no meu teste. Porém, existe outro teste implícito que era a conceptualização do termo complicado, que ela não quis se adentrar, ou que no momento ela não pensou em formular. De novo o termo complicado descontextualizado (ou tido por ela de tal modo descontextualizado)!


Adoro falar besteiras e ver como as pessoas reagem a elas. O problema é que me torno uma pessoa sem crédito no que falo (tenho que mudar essa mania). Mas o bom é que consigo extrair aprendizados poderosos, tão poderosos que valem a pena tal descrédito. Para encerrar, voltando ao assunto desse post, é complicado achar que quando um aluno não aprende não é problema nosso. É problema nosso, pois estamos tratando da vida daquele sujeito. Ainda não tive o desprazer de rodar algum aluno, mas antes de fazê-lo pretendo insistir muito nele, pra depois poder dizer que fiz tudo o possível, que tentei vencer as barreiras do complicado com ele e aí sim, dormir em paz!