Há muito tempo que estava querendo publicar um post sobre o
conceito de “complicado” que ouço por aí. Bem lá vai...
A primeira consideração que queria colocar neste post é que
mesmo que as pessoas pensem que o a palavra complicado significa algo que não
dá pé, na verdade considero tal palavra com sendo um convite desafiador para
que nos renovemos constantemente nas nossas ações cotidianas, inclusive em sala
de aula. Quero dizer com isso que o conceito de complicado que usamos
ultimamente não é o conceito correto e não quer dizer o que realmente a palavra
quer dizer. Isso se deve ao fato que muitas vezes buscamos certas desculpas que
não condizem com a realidade de nossos alunos, pois acreditamos que fazemos a
nossa parte. Se fizermos a nossa parte, então podemos descansar tranquilamente à
noite. O problema que a coisa não deveria ser pensada de tal modo.
Imagine que você está dentro de uma sala de aula com trinta
adolescentes com os hormônios estourando e que você deve transmitir o
conhecimento que tens a eles. Nenhum aluno está prestando atenção em você.
Ninguém quer saber de matemática, física e se você for professor de filosofia,
você percebe que a situação se complica ainda mais por causa do descrédito e
preconceito institucionalizado na nossa sociedade – só agora é que estão
surgindo políticas que tratam do ensino de filosofia –(olha só o nosso termo
aparecendo aqui novamente XD). A questão é que muitas vezes nos escondemos
atrás desse termo e o significamos como algo impossível. A palavra complicada,
quando usada, pontua a existência de algo difícil de ser feito. Isso não quer
dizer que as atividades que você propõe sejam impossíveis de serem feitas. A desculpa
é sempre a mesma: eles não querem nada com nada. Infelizmente alguns professores
pensam assim. Eu já tive professores com esse tipo de pensamento, todo mundo já
teve. Numa das escolas onde eu estudei (ainda bem que fiquei somente um ano),
tinha uma professora que lançava a seguinte máxima: “Esse aí é irmão do Fulano.
O Fulano parou de estudar na quinta série, não é ninguém, vive vendendo droga...
esse daí vai seguir o mesmo caminho, por isso não preciso me preocupar com ele!”.
Bem hoje o irmãozinho do Fulano tá fazendo faculdade, não sei do que, mas está
fazendo (não é a faculdade do crime!, faculdade mesmo!!!). A teoria da hereditariedade
genética que essa pessoa que se diz educadora não passou despercebida por mim,
pois achava um absurdo desde aquela época de ensino fundamental. Continuando o
restante desse pensamento ridículo e preconceituoso ela dizia: “Eu tentei
explicar ao irmãozinho do Fulano, mas ele nunca me ouviu, esse daí também não
ouve, é complicado lidar com gente assim!”.
Outra vez a palavra complicada aparece como sinônimo de impossibilidade.
Certa vez estava eu e a minha irmã num jantar de comemoração
de término de mestrado de uma amiga minha. Essa minha amiga também tinha uma
amiga que é professora da educação infantil. Acho que fiquei tão complexada com
essa situação que eu acabei pegando a mania de testar as outras pessoas. Comecei
a conversar com ela sobre educação. Daí comentei que a professora da FACED
disse que devemos analisar a turma e que havia coisas que poderíamos fazer com
tal turma e com outras não porque era complicado de ser feito (claro, tudo
mentira: nunca ouvi isso), e o pior ainda, disse que concordava. A cara que a
guria fez foi de revolta. É sério, nunca vi uma educadora tão revoltada com uma
besteira dessas, e ainda bem que ela é revoltada com esse tipo de fala! Fiquei
muito feliz de descobrir que existem pessoas que não pensam desse jeito
manipulador e triste. Claro, passei por uma completa abobada... mas enfim,
gostei de saber que ela tinha passado no meu teste. Porém, existe outro teste
implícito que era a conceptualização do termo complicado, que ela não quis se
adentrar, ou que no momento ela não pensou em formular. De novo o termo
complicado descontextualizado (ou tido por ela de tal modo descontextualizado)!
Adoro falar besteiras e ver como as pessoas reagem a elas. O
problema é que me torno uma pessoa sem crédito no que falo (tenho que mudar
essa mania). Mas o bom é que consigo extrair aprendizados poderosos, tão
poderosos que valem a pena tal descrédito. Para encerrar, voltando ao assunto
desse post, é complicado achar que quando um aluno não aprende não é problema
nosso. É problema nosso, pois estamos tratando da vida daquele sujeito. Ainda não
tive o desprazer de rodar algum aluno, mas antes de fazê-lo pretendo insistir
muito nele, pra depois poder dizer que fiz tudo o possível, que tentei vencer
as barreiras do complicado com ele e aí sim, dormir em paz!