domingo, 11 de agosto de 2013

UMA AULA DE FILOSOFIA?

A primeira coisa que gostaria de deixar bem claro é que este post não vai tratar de uma fórmula mágica de como trabalhar análise de textos com alunos do ensino médio. A segunda coisa é que a afirmação de que "devemos pensar um outro eu que não eu", é uma afirmação que não pertence ao campo filosófico, e sim, faz parte de um curso de autoajuda que talvez não seja relevante pra qualquer área do ensino. Se você realmente acha que é possível fazer isso, na boa, pense melhor! 

A maioria dos educadores que trabalha com filosofia pensa em sistematizar o ensino de modo que o aluno consiga entender aquilo que é trabalhado como sendo um processo unilateral. Isso quer dizer que se o sujeito aprende algo, ele deve aprender mediante um método eficaz que proporcione o conforto de certo entendimento, sem se analisar a proporção que certas afirmações podem alcançar quando que apreendidas pelo aluno de certa forma. O ensino de filosofia não é unilateral, nunca foi, nunca será (jamé). Se eu penso que os meus alunos são sujeitos pensantes, que possuem linhas de raciocínio distintas, que possuem certos graus de dificuldades de compreensão das coisas, então devo pensar uma aula voltada a todos esses sujeitos agentes em formação. Portanto, não posso pensar de uma forma puramente esquematizada sem me dar ao trabalho de analisar essas questões. Com isso não quero dizer que o ensino de filosofia deva ser relativo e sem qualquer organização ou ordem predisposta, ou que a filosofia compreende ideias distintas e que devemos respeitá-las porque estamos tratando de opiniões que retratam o modo de pensar das pessoas. Acredito sinceramente que isso é uma grande bobagem! Tbm não quero dizer com isso que devemos desrespeitar os outros. Estou dizendo que as opiniões, mesmo que respeitadas devem ser discutidas e colocadas em pauta de modo satisfatório, onde os argumentos que fundam as nossas opiniões sejam apresentados de modo que suscite uma discussão saudável.


Esse é um grande problema e é isso que quero deixar um pouco mais claro ao decorrer deste post.

A primeira coisa que devemos ter em mente, como salientado na introdução, é um ensino voltado a análise da argumentos em um primeiro momento. Isto quer dizer que se o sujeito entende que o argumento que defende é coerente, é porque entende que a a conclusão ao qual chega, segue-se de premissas que a sustenta: se há algum problema estrutural na premissa que adota, ou que a conclusão não se segue das premissas, é preciso fazer com que o sujeito compreenda o problema em questão e busque de modo argumentado a melhor solução possível para o problema. O que não quer dizer que seja a solução ideal. Num segundo momento é preciso trabalhar a redação de textos filosóficos e mostrar o como se faz isso. É claro que não estou tratando de um assunto fácil, ou que essa seja uma questão simples, e que não necessita trabalho árduo... muito antes pelo contrário: quero deixar claro que essas atividades envolvem muito esforço e força de vontade por parte do educador, o que muitas vezes não notamos, porque estamos acostumados com coisas simples que nos sejam confortáveis, ou ainda não temos disponibilidade de tempo para fazer um bom trabalho, tendo em vista que acabamos sendo responsabilizados por 15 turmas ou mais (ou bem mais) na escola que trabalhamos. Por esse motivo, e por outros motivos pedagógicos, se torna imprescindível o diálogo com a disciplina de português, por exemplo, pois se o sujeito entende que aquilo que faz é parte constituinte do aprender a se comunicar e a expor as suas ideias, podemos notar que o papel da filosofia vai muito além do ensino de coisas abstratas que nada têm a ver com a vida dos nossos educandos.

Por outro lado vemos constantemente o absurdo que muitos educadores fazem ao dizer que devemos pensar as pessoas como sendo um eu que não eu. É bonita tal afirmação, mas que cabe melhor em um livro de autoajuda. Existe um problema conceitual ao que se refere o 'eu': eu é eu, e não tu, ou eles. É difícil pensar um sujeito que não é um sujeito, do mesmo modo é difícil pensar um eu que não eu. Se eu começar a pensar os alunos como sendo um eu que não eu, eu caio num problema de cunho existencial, porque eu estou tratando eles como eu gostaria de ser tratada. Em outras palavras, se eu trato um sujeito com desdém poderia estar deixando implícito no ar que eu também gosto de ser tratada de igual modo, o que não é o caso (só se você for extremamente sádico, gosto não se discute... claro que se discute, mas não agora XD). A questão que deve ser melhor analisada, portanto, é como eu trato os meus alunos. Chegamos a uma complicação complexa XD. O que eu quero propor agora é que você pense na formação que teve na faculdade sobre psicologia e o entendimento do processo cognitivo do sujeito. Se você pensou e percebeu que não teve uma cadeira sequer que trate desse tema, parabéns, somos dois! Agora se você teve uma aula que deixou a desejar e que não tratou como devia do assunto, você está num grupo maior ainda e mais tenebroso: daqueles que acham que sabem sobre o processo cognitivo humano. Ou seja, quer dizer que você não pode opinar? Claro que pode, e é o que farei!

Já ouvi muitas vezes que “Eu odiaria ser tratada como sendo um sujeito não pensante, que não tenha as minhas próprias opiniões. Portanto devo tratar os meus alunos do mesmo modo que gostaria”. Novamente, você é educador, você não é o seu aluno, mas é certo que ninguém gostaria de ser tratado como sendo um sujeito acrítico, apolítico, acaralhaquatro. Mas isso não quer dizer que você deve se colocar no lugar do seu aluno. Se você se colocasse no lugar do seu aluno, você entenderia muito bem que a sua aula é uma porcaria e que são legitimas as faltas que os seus alunos têm, ou ainda o pouco interesse em estudar aquilo que está dando em aula, tampouco aceitaria normalmente uma proposta de trabalho mal feita, sem criticar, sem contar aos colegas. Se você pensa que enquanto aluno gostaria de ter uma aula que nem a sua, engana-se ao pensar que todos vão participar da sua aula de bom grado. Querendo ou não, quando um sujeito é adolescente ele não pensa em como aproveitar certos espaços de aprendizagem, e sim no como poderia se livrar do incomodo que é saír de casa de manhã cedo, tomar banho, tomar café e pegar um ônibus lotado pra ir até o colégio assistir uma aula de filosofia que provavelmente ele não entende o porquê do estudo tão desnecessário quanto esse. Claro existe aquele aluno que é interessado, que busca saber das coisas, etc., mas que mesmo assim não consegue manter um rigor nas suas ideias e disposições ao estudo. É isso que um professor que trabalha com psicologia da educação deveria nos dizer, e acabamos por vezes nos remetendo às lembranças do nosso passado escolar. 

Muitos dos educadores, ao fazer esse exercício, compreendem que o aluno tem as suas necessidades que devem ser atendidas: mas você já parou pra pensar que ao retomar o tempo de colégio você poderia estar tratando os teus alunos como sendo "um outro eu que não eu"? As tuas necessidades educacionais são outras e não as mesmas que os teus alunos têm: os tempos são outros, as coisas mudam.

Você continua tratando os seus alunos como sendo “um outro eu que não eu”?





quarta-feira, 10 de julho de 2013

MORALIDADE

O que acontece se aceitarmos o utilitarismo?
Daione Caroline Balduzzi Pavan
Objetivos
·         Trabalhar o princípio da utilidade moral partindo das observações de Michel J. Sandel e James Rachels sobre o assunto.
·         Analisar como a questão do valor está contida na teoria utilitarista.
·         Entender o que significa respeitar as pessoas como sendo um fim em si mesmo, e como isso não se
·         Trabalhar o entendimento de porque que o utilitarismo não poderia ser considerado um modelo de egoísmo moral.
·         Trabalhar a argumentação e reconhecimento de teses e suas razões.

 Justificativa
      Agir moralmente bem é um desafio que todos temos enquanto sujeitos dentro de uma sociedade, pois partimos do pressuposto que as consequências de nossas ações serão fatores importantes para a manutenção da vida. Segue-se daí que o que importa seriam os fins alcançados. O que eu pretendo fazer é perguntar se realmente as coisas acontecem de tal modo. Será que agir conforme a utilidade, sendo essa mensurada a partir dos níveis de prazer e dor, é a melhor forma de descobrirmos o que seja agir bem?  A manutenção da vida realmente depende disso? Se não quais as outras opções que temos?

Fazer o aluno pensar sobre isso é essencial para a sua formação, pois se trata de algo que ele está diretamente envolvido, e que realmente interessa a ele enquanto cidadão. Isto é, o agir moralmente bem, não se trata de um manual prático de condutas a serem seguidas, mas uma reflexão do que pode ou não pode ser correto em dadas circunstâncias. Imaginando uma situação problema em sala de aula em que um sujeito que está à beira da morte pede para que alguém desligue os seus aparelhos, pois não quer continuar a sofrer, ilustra não somente o que seja agir conforme o cálculo de prazer e dor, mas também a problemática envolvida: se é correto ajudar alguém a se matar. O que há de correto no ato de matar nesse caso e que não se iguala ao caso do homicídio, por exemplo?  É esse tipo de coisa que permeia a sociedade em que o aluno está inserido. Imaginando outro caso mais dramático ainda: se eu estivesse em um navio e esse naufragasse, e que poderiam ser resgatados somente quatro pessoas, dentre vinte, levanta-se o seguinte questionamento: quais os critérios de escolha que podemos usar tendo em vista a máxima realização de uma felicidade? Ao perguntarmos aos nossos alunos se é possível pensar assim, não estamos colocando em evidência que tal ação seja boa necessariamente, mas que é possível pensar sobre o fato com o máximo de imparcialidade e daí tirarem as suas próprias conclusões, justificando através de argumentos a posição adotada.

Quando escolhi o seguinte título para o trabalho: “O que acontece se aceitarmos o utilitarismo?”, tinha em mente perguntar aos alunos se eles realmente conseguem comprar por inteiro a teoria utilitarista, em que os fins justificariam os meios, e se não for o caso, no que divergem.


 TEXTO I – Alguns Problemas da Moralidade
Se você escova os dentes, você está fazendo isso para não ter cáries e não precisar ir ao dentista para que ele obture os teus dentes, tendo em vista não sofrer com dores desnecessárias. Se você vai à escola é porque você precisa estudar pra ter um trabalho digno e não sofrer com a falta de dinheiro quando necessitar. Se você acha que a vida de crimes não é uma boa opção de vida, é porque acredita que além do dinheiro fácil tal vida pode te propiciar mais infelicidade que felicidade, logo irá evita-la. Todos esses casos nos mostram que direcionamos as nossas ações tendo em vista evitar a dor ou a infelicidade.

O assunto que vai ser tratado nesse texto é justamente esse: se devemos agir tendo em vista a nossa maior felicidade, ou seja, a teoria utilitarista. Os fins, finalidades ou resultados de nossas ações são coisas que pensamos antes de agirmos, segundo tal tese. Se forem coisas levadas em consideração, é porque acreditamos que isso seja realmente importante para as nossas vidas. Logo devemos fazer tal cálculo para termos certeza de que estamos fazendo a coisa certa. Exemplo: Você está numa concessionária de veículos e tem duas opções: ou você compra o carro, ou a moto. É claro que o carro pode te trazer maior conforto e segurança, porém você quer chegar rápido ao trabalho com esse veículo. No momento você percebe que a melhor opção que te trará maior proveito na relação custo benefício será a moto. Portanto você a escolhe. O que está em jogo neste caso é a sua comodidade, uma vez que tal ação diz respeito a aquilo que queres. Assim sendo parece que tal escolha não desrespeita as outras pessoas.

Imagine agora que um amigo lhe peça R$ 400,00 reais e promete lhe devolver o dinheiro quando possível. O problema é que ele nunca devolve. A ação de pedir emprestados os R$ 400,00 reais não é tida como moralmente correta ou incorreta, mas a intenção em si. O que eu quero dizer com isso, é que se o seu amigo for pedir a você o dinheiro como empréstimo e já ter a intenção de não devolvê-lo, então a ação já é considerada moralmente ruim, pois ele estará mentindo a você. Supondo que este seu amigo seja uma pessoa má intencionada, e pede emprestado o dinheiro, no momento que ele precisar novamente de um empréstimo, não vai conseguir, porque as pessoas não vão confiar nele. Ao pedir emprestado e não devolver, o seu amigo está abrindo oportunidade para que outras pessoas também achem correto fazer o mesmo, pois o que está em jogo é a felicidade individual. Notemos que no caso acima o sujeito considerou todas as coisas que poderiam ser vantajosas para ele em dado momento, e mesmo assim, algumas coisas não são consideradas boas sem restrição em todos os momentos. Ou seja, ele não poderia querer que todas as pessoas agissem do mesmo modo porque ele não gostaria de ser o ludibriado. Como a falsa promessa abre esta possibilidade, logo não poderia ser considerada uma coisa boa sem restrições em todos os momentos.

Prometer falsamente é o mesmo que mentir para uma pessoa. Se por um lado você não gostaria que mentissem pra você, você também não deve querer mentir pelo mesmo motivo. Será mesmo que em todos os casos possíveis a mentira poderia ser considerada uma ofensa aos outros? Imagine agora que você esteja voltando da escola e repentinamente aparece um sujeito a sua frente pedindo um favor: “Por favor, me ajude! Preciso da sua ajuda para despistar um homem que quer me matar. Você poderia fazer isso lhe contando uma mentira?”. Você sabe que prometer falsamente é um tipo de mentira que não contempla as pessoas em todos os casos, isto quer dizer que se não contempla é ineficiente. A ineficiência da mentira pode ser traçada pelo simples agir em um caso isolado. Se fossemos pensar no caso em que se vê obrigado a mentir para salvar a vida de outra pessoa que nem conhece é porque você se sente responsável pelo que pode acontecer ao sujeito. Se o sujeito que você ajuda for morto por causa da informação verdadeira que você dá a outro sujeito que quer matar o primeiro, você também vai se sentir culpado. Isto é, por causa dessa possível sensação de culpa que você não vai contar ao possível assassino onde está o primeiro sujeito que lhe pediu o favor.

Fazendo isso você continua com o seu cálculo de felicidade sempre positivo, pois não se sentirás culpado pela morte do primeiro sujeito.  Então quer dizer que se aceitarmos esta concepção moral, de que precisamos ponderar o que mais me traz felicidade então estou sendo egoísta?


TEXTO II -    O Utilitarismo Pode Ser Considerado um Tipo de Egoísmo Moral?
Um filantropo pode ajudar a outras pessoas porque acredita que aquilo é o certo a se fazer, mas ao mesmo tempo nada garante que ele esteja agindo de modo a realizar um desejo que tem. Ao roubar o celular de uma pessoa enquanto ela anda distraída pela rua, o ladrão, não só aparenta fazer uma coisa errada, mas também consideramos ser este um ato que não leva em consideração o que os outros querem ou sentem. Será que agir conforme um cálculo de felicidade não poderia ser tido como uma forma de agir de modo egoísta?

Se ao agirmos procuramos fazer um cálculo entre prazer e dor e buscamos geralmente aquilo que nos proporciona maior felicidade, então estamos tratando de uma teoria moral que legitima o egoísmo como parte atuante nas nossas decisões. Isso quer dizer que se o sujeito entende algo como sendo bom sem reservas é porque entende que aquilo é o melhor a ser feito para ele e ponto. Ou seja, não leva em consideração as outras pessoas que possivelmente estão envolvidas na situação, e, portanto, o beneficiário é o sujeito agente, pois sua ação tem em vista a busca pela sua própria felicidade. Assim uma pessoa poderia ajudar a outra não porque considera seu dever fazê-lo, mas porque entende que aquilo de alguma forma pode lhe ajudar. Exemplo: Joaninha estava passando por uma fase difícil em sua vida, uma amiga lhe aconselhou a ir numa instituição de caridade, ensinar as crianças que ali estão sendo atendidas, técnicas de tricô e crochê. Logo que começa a fazer tal atividade ela percebe uma melhora no seu humor. Assim a ação que a Joaninha desempenhou não visa necessariamente a ajudar as crianças daquele lugar, mas sim melhorar a sua autoestima. O fim, na verdade, é o bem dela mesma.

Isso corrobora com aquela pergunta que eu fiz no final do texto anterior. Se você mente para o assassino, você o faz em vistas do quê? Você pode mentir para o suposto assassino com vistas a salvar o sujeito; ou ainda porque não quer sofrer com o infortúnio que a angústia pode lhe causar. Se disser a verdade você também pode pensar em si, pois o suposto assassino pode voltar e lhe matar por causa da falsa informação; ou ainda você pode não mentir tendo em vista salvar o outro sujeito, vai que ele tenha saído e escapado do local onde se escondeu e depois encontre com o assassino e tenha a infelicidade de ser morto.

Pensemos no seguinte exemplo, a fim de excluir a ambiguidade do problema: Luciana mora em um lugar próximo a uma represa, que arrebentou por causa da chuva torrencial. Ela conseguiu juntar toda a sua família na Combi que tem (o filho o marido e o cachorrinho, mais algumas coisas básicas, como comida e alguns agasalhos). Mesmo assim ela decidiu ajudar os outros vizinhos. Como a combi é muito velha ela só pôde escolher mais três pessoas: uma senhora de oitenta anos, o seu marido, e mais uma criança que estava perdida, cujos pais estavam fora do local da enchente. Vejamos bem: ela utilizou como critério para escolha o fato de essas serem pessoas que não conseguiriam escapar às pressas e sobreviverem. Fica evidente, portanto, que Luciana pensou somente no que deveria ser feito. Ela não pensou no mérito como muitas pessoas poderiam argumentar, porque em um momento como esse você só pensa em fazer aquilo que pode e deu. Ou seja, essa ação não poderia ser interpretada como sendo um resquício do egoísmo.

De certo modo não poderíamos aliar o utilitarismo a certo egoísmo moral. Poderíamos dizer que Luciana, no momento que escolheu aquelas pessoas para entrarem no seu veículo além de estabelecer um critério de escolha entendeu que se morressem, outras pessoas da comunidade sentiriam a falta delas. Ou seja, se ao sentir falta a pessoa fica triste, isso não gera prazer, muito menos felicidade. Já como eles estavam em uma situação difícil, poderia piorar ainda mais a infelicidade deles se alguém morresse. Já como a teoria utilitarista tem por objetivo mostrar que as nossas ações são regradas por sensações de dor e prazer, devemos sempre fazer o possível para escaparmos da dor, pois isso nos leva a nossa felicidade ou temos menos desprazer na vida. A minha felicidade se soma a felicidade dos outros fazendo com que a minha sociedade seja feliz. Logo aquilo que eu considero bom é algo que pode ser bom para todos, pois tem em si a mesma finalidade, a de fugir da dor e buscar a felicidade.

O egoísmo de certo modo também leva em consideração o que o sujeito entende como sendo bom para ele mesmo. Mas a diferença é que ele, antes de agir, vai levar em consideração somente aquilo que considera bom pra si, usando as outras pessoas como meios de suas conquistas. Isso ocorre no utilitarismo, mas na maioria das vezes está em jogo o bem comum de dada sociedade, o que nos faz perguntar se é correto fazer isso tendo em vista a felicidade geral.

TEXTO III - É correto usar as pessoas como meio para um fim?
1.    Até agora tratamos de casos que envolvem o interesse dos outros de um modo um tanto quanto secundário, como se fosse o papel de parede de uma problemática maior. Chegou o momento de darmos uma olhada mais a fundo no que significa dizer que é possível usar as pessoas como fim que não elas mesmas.

2.    Supomos que você conheça um homem que sobrevive extorquindo mulheres. Ele as usa de tal modo que elas não percebem que estão sendo roubadas pelo companheiro. Ele pede dinheiro para comprar comida para os seus gatos, peças de computador e sempre promete que vai devolver a quantia emprestada. Mesmo assim, elas não acham estranho o comportamento desse homem, que além de viver pedindo dinheiro para pagar suas contas, ele as trata mal. Esse homem está na verdade usando essas pobres mulheres como meio de sua finalidade: viver bem sem desprazer, buscando realizar a sua felicidade sempre tanto quanto for possível, que é viver às custas dos outros. Isso seria por si só errado porque desrespeita um sujeito enquanto possuidor de uma vontade e dignidade. Ou seja, dizemos que um ser humano é digno de respeito porque possui a capacidade de raciocinar, que todos os seres humanos têm inclusive eu.  O que está em jogo, portanto, é o como tratamos os nossos iguais. Devemos levar em consideração os interesses dos outros. Mas por quê?

3.    Supomos agora, que você é um policial e que está investigando um possível caso de terrorismo. Você captura o suspeito, porém ele não quer falar. Você conversa numa boa com o sujeito, explica a situação dele dizendo que se ele não colaborar ele pode ser sentenciado a uma pena maior. Enfim, respeita o sujeito como sendo um fim em si mesmo, e mesmo assim ele não quer cooperar com as investigações. Depois você passa a ser intolerante e o tortura. Certo momento um colega seu tem a ideia de sequestrar a mãe do sujeito, com a esperança de que ao privá-la de sua liberdade o sujeito comece a dar o depoimento sobre o caso. Ou seja, a ideia desse seu colega é bem simples: ele pensa em usar a mãe do sujeito como meio de descobrir onde está a bomba, tendo em vista salvar outras pessoas que podem morrer, caso for detonada. Se vocês não fizerem isso ele não vai falar e muitas pessoas poderão morrer por causa desse irresponsável. Você acha correto fazer isso?

4.    Se você respondeu que sim é correto torturar a mãe do bandido é porque você é um utilitarista e está pensando no bem maior de outras pessoas. Caso você respondeu que não é correto fazer isso porque ela é uma pessoa e deve ser respeitada como tal então não poderia ser correto para você, torturar o terrorista. Uma das críticas ao utilitarismo é justamente essa: que ele não consegue respeitar os direitos individuais. Uma vez que tal tese se compromete somente com um cálculo de prazer e dor, então o que é certo a fazer é aquilo que propicia maior felicidade para o todo e em casos isolados, onde os direitos e vontades dos outros não estejam em jogo. A mãe do sujeito nesse último exemplo mostra justamente isso: a vontade dela não é respeitada se acaso você acreditar que o melhor a ser feito é justamente trancá-la em uma cela como modo de torturar o teu suspeito. Por outro lado parece legítimo fazermos isso tendo em vista o bem comum. Se não torturarmos a mãe do sujeito teremos um monte de pessoas mortas e é isso que não queremos.

5.    Continuando a ferir a dignidade alheia, vamos ao terceiro exemplo: após uma grande explosão sobrevivem apensas cem pessoas que estavam dentro de um bunker situado na região do círculo polar antártico. Após a explosão as geleiras evaporam, restando apenas as rochas, terras e o bunker. O problema agora é como manter a vida, tendo em vista que os recursos que garantem a vida como água e comida evaporaram ou viraram pó, a única saída que o grupo encontrou de manter a vida dessa nova sociedade pós-apocalíptica é matando os 17 homens com mais de quarenta anos e usando a sua carne para a nutrição.  A primeira vista isso é horrível, porque não consideramos correto matar e comer a carne de um ser humano. Mesmo assim, pode ser considerada tal ação como correta, o certo a se fazer naquelas circunstâncias. A escolha daqueles 17 homens com mais de quarenta anos não foi por um acaso; foi feito um cálculo baseado na relação custo beneficio. Os outros homens mais novos são mais fortes e por isso conseguem erguer, se preciso, alguma parede, defender a nova sociedade de algum animal mutante remanescente da explosão.

6.    Nestes dois últimos casos não julgamos ser tão errado assim não respeitar as

pessoas como fim em si mesmas. Embora que no primeiro exemplo achamos horrendo e triste ver um homem se aproveitando de várias mulheres em benefício próprio. O que distingue esses dois últimos casos do primeiro, são as circunstâncias. O homem aproveitador poderia trabalhar para viver bem, mesmo assim escolhe sobreviver do que as mulheres lhe dão. Os outros dois casos são caracterizados pelo fato que em condições normais, não faríamos isso. Finalmente, isso seria desculpável porque não é natural das pessoas comerem umas às outras, muito menos torturar a mãe de alguém (salvo no caso do psicopata sádico, mas aí a pessoa tem um problema na região do cérebro que controla nosso senso de justiça e o impossibilita a pensar diferente as suas relações com os outros).

sábado, 8 de junho de 2013

É COMPLICADO!

Há muito tempo que estava querendo publicar um post sobre o conceito de “complicado” que ouço por aí. Bem lá vai...

A primeira consideração que queria colocar neste post é que mesmo que as pessoas pensem que o a palavra complicado significa algo que não dá pé, na verdade considero tal palavra com sendo um convite desafiador para que nos renovemos constantemente nas nossas ações cotidianas, inclusive em sala de aula. Quero dizer com isso que o conceito de complicado que usamos ultimamente não é o conceito correto e não quer dizer o que realmente a palavra quer dizer. Isso se deve ao fato que muitas vezes buscamos certas desculpas que não condizem com a realidade de nossos alunos, pois acreditamos que fazemos a nossa parte. Se fizermos a nossa parte, então podemos descansar tranquilamente à noite. O problema que a coisa não deveria ser pensada de tal modo.

Imagine que você está dentro de uma sala de aula com trinta adolescentes com os hormônios estourando e que você deve transmitir o conhecimento que tens a eles. Nenhum aluno está prestando atenção em você. Ninguém quer saber de matemática, física e se você for professor de filosofia, você percebe que a situação se complica ainda mais por causa do descrédito e preconceito institucionalizado na nossa sociedade – só agora é que estão surgindo políticas que tratam do ensino de filosofia –(olha só o nosso termo aparecendo aqui novamente XD). A questão é que muitas vezes nos escondemos atrás desse termo e o significamos como algo impossível. A palavra complicada, quando usada, pontua a existência de algo difícil de ser feito. Isso não quer dizer que as atividades que você propõe sejam impossíveis de serem feitas. A desculpa é sempre a mesma: eles não querem nada com nada. Infelizmente alguns professores pensam assim. Eu já tive professores com esse tipo de pensamento, todo mundo já teve. Numa das escolas onde eu estudei (ainda bem que fiquei somente um ano), tinha uma professora que lançava a seguinte máxima: “Esse aí é irmão do Fulano. O Fulano parou de estudar na quinta série, não é ninguém, vive vendendo droga... esse daí vai seguir o mesmo caminho, por isso não preciso me preocupar com ele!”. Bem hoje o irmãozinho do Fulano tá fazendo faculdade, não sei do que, mas está fazendo (não é a faculdade do crime!, faculdade mesmo!!!). A teoria da hereditariedade genética que essa pessoa que se diz educadora não passou despercebida por mim, pois achava um absurdo desde aquela época de ensino fundamental. Continuando o restante desse pensamento ridículo e preconceituoso ela dizia: “Eu tentei explicar ao irmãozinho do Fulano, mas ele nunca me ouviu, esse daí também não ouve, é complicado lidar com gente assim!”.  Outra vez a palavra complicada aparece como sinônimo de impossibilidade.

Certa vez estava eu e a minha irmã num jantar de comemoração de término de mestrado de uma amiga minha. Essa minha amiga também tinha uma amiga que é professora da educação infantil. Acho que fiquei tão complexada com essa situação que eu acabei pegando a mania de testar as outras pessoas. Comecei a conversar com ela sobre educação. Daí comentei que a professora da FACED disse que devemos analisar a turma e que havia coisas que poderíamos fazer com tal turma e com outras não porque era complicado de ser feito (claro, tudo mentira: nunca ouvi isso), e o pior ainda, disse que concordava. A cara que a guria fez foi de revolta. É sério, nunca vi uma educadora tão revoltada com uma besteira dessas, e ainda bem que ela é revoltada com esse tipo de fala! Fiquei muito feliz de descobrir que existem pessoas que não pensam desse jeito manipulador e triste. Claro, passei por uma completa abobada... mas enfim, gostei de saber que ela tinha passado no meu teste. Porém, existe outro teste implícito que era a conceptualização do termo complicado, que ela não quis se adentrar, ou que no momento ela não pensou em formular. De novo o termo complicado descontextualizado (ou tido por ela de tal modo descontextualizado)!


Adoro falar besteiras e ver como as pessoas reagem a elas. O problema é que me torno uma pessoa sem crédito no que falo (tenho que mudar essa mania). Mas o bom é que consigo extrair aprendizados poderosos, tão poderosos que valem a pena tal descrédito. Para encerrar, voltando ao assunto desse post, é complicado achar que quando um aluno não aprende não é problema nosso. É problema nosso, pois estamos tratando da vida daquele sujeito. Ainda não tive o desprazer de rodar algum aluno, mas antes de fazê-lo pretendo insistir muito nele, pra depois poder dizer que fiz tudo o possível, que tentei vencer as barreiras do complicado com ele e aí sim, dormir em paz!