O
que acontece se aceitarmos o utilitarismo?
Daione Caroline Balduzzi Pavan
Objetivos
·
Trabalhar
o princípio da utilidade moral partindo das observações de Michel J. Sandel e
James Rachels sobre o assunto.
·
Analisar
como a questão do valor está contida na teoria utilitarista.
·
Entender
o que significa respeitar as pessoas como sendo um fim em si mesmo, e como isso
não se
·
Trabalhar
o entendimento de porque que o utilitarismo não poderia ser considerado um
modelo de egoísmo moral.
·
Trabalhar
a argumentação e reconhecimento de teses e suas razões.
Justificativa
Agir
moralmente bem é um desafio que todos temos enquanto sujeitos dentro de uma
sociedade, pois partimos do pressuposto que as consequências de nossas ações
serão fatores importantes para a manutenção da vida. Segue-se daí que o que
importa seriam os fins alcançados. O que eu pretendo fazer é perguntar se
realmente as coisas acontecem de tal modo. Será que agir conforme a utilidade,
sendo essa mensurada a partir dos níveis de prazer e dor, é a melhor forma de
descobrirmos o que seja agir bem? A
manutenção da vida realmente depende disso? Se não quais as outras opções que temos?
Fazer o aluno pensar sobre isso é
essencial para a sua formação, pois se trata de algo que ele está diretamente
envolvido, e que realmente interessa a ele enquanto cidadão. Isto é, o agir
moralmente bem, não se trata de um manual prático de condutas a serem seguidas,
mas uma reflexão do que pode ou não pode ser correto em dadas circunstâncias.
Imaginando uma situação problema em sala de aula em que um sujeito que está à
beira da morte pede para que alguém desligue os seus aparelhos, pois não quer
continuar a sofrer, ilustra não somente o que seja agir conforme o cálculo de
prazer e dor, mas também a problemática envolvida: se é correto ajudar alguém a
se matar. O que há de correto no ato de matar nesse caso e que não se iguala ao
caso do homicídio, por exemplo? É esse
tipo de coisa que permeia a sociedade em que o aluno está inserido. Imaginando outro
caso mais dramático ainda: se eu estivesse em um navio e esse naufragasse, e que
poderiam ser resgatados somente quatro pessoas, dentre vinte, levanta-se o
seguinte questionamento: quais os critérios de escolha que podemos usar tendo
em vista a máxima realização de uma felicidade? Ao perguntarmos aos nossos
alunos se é possível pensar assim, não estamos colocando em evidência que tal
ação seja boa necessariamente, mas que é possível pensar sobre o fato com o
máximo de imparcialidade e daí tirarem as suas próprias conclusões,
justificando através de argumentos a posição adotada.
Quando escolhi o seguinte título para
o trabalho: “O que acontece se
aceitarmos o utilitarismo?”, tinha em mente perguntar aos alunos se eles
realmente conseguem comprar por inteiro a teoria utilitarista, em que os fins
justificariam os meios, e se não for o caso, no que divergem.
TEXTO I – Alguns Problemas da Moralidade
Se você
escova os dentes, você está fazendo isso para não ter cáries e não precisar ir
ao dentista para que ele obture os teus dentes, tendo em vista não sofrer com
dores desnecessárias. Se você vai à escola é porque você precisa estudar pra
ter um trabalho digno e não sofrer com a falta de dinheiro quando necessitar.
Se você acha que a vida de crimes não é uma boa opção de vida, é porque
acredita que além do dinheiro fácil tal vida pode te propiciar mais
infelicidade que felicidade, logo irá evita-la. Todos esses casos nos mostram
que direcionamos as nossas ações tendo em vista evitar a dor ou a infelicidade.
O assunto
que vai ser tratado nesse texto é justamente esse: se devemos agir tendo em
vista a nossa maior felicidade, ou seja, a teoria utilitarista. Os fins,
finalidades ou resultados de nossas ações são coisas que pensamos antes de
agirmos, segundo tal tese. Se forem coisas levadas em consideração, é porque
acreditamos que isso seja realmente importante para as nossas vidas. Logo
devemos fazer tal cálculo para termos certeza de que estamos fazendo a coisa
certa. Exemplo: Você está numa concessionária de veículos e tem duas opções: ou
você compra o carro, ou a moto. É claro que o carro pode te trazer maior
conforto e segurança, porém você quer chegar rápido ao trabalho com esse
veículo. No momento você percebe que a melhor opção que te trará maior proveito
na relação custo benefício será a moto. Portanto você a escolhe. O que está em
jogo neste caso é a sua comodidade, uma vez que tal ação diz respeito a aquilo
que queres. Assim sendo parece que tal escolha não desrespeita as outras
pessoas.
Imagine
agora que um amigo lhe peça R$ 400,00 reais e promete lhe devolver o dinheiro
quando possível. O problema é que ele nunca devolve. A ação de pedir emprestados
os R$ 400,00 reais não é tida como moralmente correta ou incorreta, mas a
intenção em si. O que eu quero dizer com isso, é que se o seu amigo for pedir a
você o dinheiro como empréstimo e já ter a intenção de não devolvê-lo, então a
ação já é considerada moralmente ruim, pois ele estará mentindo a você. Supondo
que este seu amigo seja uma pessoa má intencionada, e pede emprestado o
dinheiro, no momento que ele precisar novamente de um empréstimo, não vai
conseguir, porque as pessoas não vão confiar nele. Ao pedir emprestado e não
devolver, o seu amigo está abrindo oportunidade para que outras pessoas também
achem correto fazer o mesmo, pois o que está em jogo é a felicidade individual.
Notemos que no caso acima o sujeito considerou todas as coisas que poderiam ser
vantajosas para ele em dado momento, e mesmo assim, algumas coisas não são
consideradas boas sem restrição em todos os momentos. Ou seja, ele não poderia
querer que todas as pessoas agissem do mesmo modo porque ele não gostaria de
ser o ludibriado. Como a falsa promessa abre esta possibilidade, logo não
poderia ser considerada uma coisa boa sem restrições em todos os momentos.
Prometer
falsamente é o mesmo que mentir para uma pessoa. Se por um lado você não
gostaria que mentissem pra você, você também não deve querer mentir pelo mesmo
motivo. Será mesmo que em todos os casos possíveis a mentira poderia ser
considerada uma ofensa aos outros? Imagine agora que você esteja voltando da
escola e repentinamente aparece um sujeito a sua frente pedindo um favor: “Por
favor, me ajude! Preciso da sua ajuda para despistar um homem que quer me
matar. Você poderia fazer isso lhe contando uma mentira?”. Você sabe que
prometer falsamente é um tipo de mentira que não contempla as pessoas em todos
os casos, isto quer dizer que se não contempla é ineficiente. A ineficiência da
mentira pode ser traçada pelo simples agir em um caso isolado. Se fossemos
pensar no caso em que se vê obrigado a mentir para salvar a vida de outra
pessoa que nem conhece é porque você se sente responsável pelo que pode
acontecer ao sujeito. Se o sujeito que você ajuda for morto por causa da
informação verdadeira que você dá a outro sujeito que quer matar o primeiro,
você também vai se sentir culpado. Isto é, por causa dessa possível sensação de
culpa que você não vai contar ao possível assassino onde está o primeiro
sujeito que lhe pediu o favor.
Fazendo
isso você continua com o seu cálculo de felicidade sempre positivo, pois não se
sentirás culpado pela morte do primeiro sujeito. Então quer dizer que se aceitarmos esta
concepção moral, de que precisamos ponderar o que mais me traz felicidade então
estou sendo egoísta?
TEXTO
II - O Utilitarismo Pode Ser
Considerado um Tipo de Egoísmo Moral?
Um
filantropo pode ajudar a outras pessoas porque acredita que aquilo é o certo a
se fazer, mas ao mesmo tempo nada garante que ele esteja agindo de modo a
realizar um desejo que tem. Ao roubar o celular de uma pessoa enquanto ela anda
distraída pela rua, o ladrão, não só aparenta fazer uma coisa errada, mas
também consideramos ser este um ato que não leva em consideração o que os
outros querem ou sentem. Será que agir conforme um cálculo de felicidade não
poderia ser tido como uma forma de agir de modo egoísta?
Se ao
agirmos procuramos fazer um cálculo entre prazer e dor e buscamos geralmente
aquilo que nos proporciona maior felicidade, então estamos tratando de uma
teoria moral que legitima o egoísmo como parte atuante nas nossas decisões.
Isso quer dizer que se o sujeito entende algo como sendo bom sem reservas é
porque entende que aquilo é o melhor a ser feito para ele e ponto. Ou seja, não
leva em consideração as outras pessoas que possivelmente estão envolvidas na
situação, e, portanto, o beneficiário é o sujeito agente, pois sua ação tem em
vista a busca pela sua própria felicidade. Assim uma pessoa poderia ajudar a
outra não porque considera seu dever fazê-lo, mas porque entende que aquilo de
alguma forma pode lhe ajudar. Exemplo: Joaninha estava passando por uma fase
difícil em sua vida, uma amiga lhe aconselhou a ir numa instituição de caridade,
ensinar as crianças que ali estão sendo atendidas, técnicas de tricô e crochê.
Logo que começa a fazer tal atividade ela percebe uma melhora no seu humor.
Assim a ação que a Joaninha desempenhou não visa necessariamente a ajudar as
crianças daquele lugar, mas sim melhorar a sua autoestima. O fim, na verdade, é
o bem dela mesma.
Isso corrobora
com aquela pergunta que eu fiz no final do texto anterior. Se você mente para o
assassino, você o faz em vistas do quê? Você pode mentir para o suposto
assassino com vistas a salvar o sujeito; ou ainda porque não quer sofrer com o
infortúnio que a angústia pode lhe causar. Se disser a verdade você também pode
pensar em si, pois o suposto assassino pode voltar e lhe matar por causa da
falsa informação; ou ainda você pode não mentir tendo em vista salvar o outro
sujeito, vai que ele tenha saído e escapado do local onde se escondeu e depois
encontre com o assassino e tenha a infelicidade de ser morto.
Pensemos no
seguinte exemplo, a fim de excluir a ambiguidade do problema: Luciana mora em
um lugar próximo a uma represa, que arrebentou por causa da chuva torrencial.
Ela conseguiu juntar toda a sua família na Combi que tem (o filho o marido e o
cachorrinho, mais algumas coisas básicas, como comida e alguns agasalhos).
Mesmo assim ela decidiu ajudar os outros vizinhos. Como a combi é muito velha
ela só pôde escolher mais três pessoas: uma senhora de oitenta anos, o seu
marido, e mais uma criança que estava perdida, cujos pais estavam fora do local
da enchente. Vejamos bem: ela utilizou como critério para escolha o fato de
essas serem pessoas que não conseguiriam escapar às pressas e sobreviverem. Fica
evidente, portanto, que Luciana pensou somente no que deveria ser feito. Ela
não pensou no mérito como muitas pessoas poderiam argumentar, porque em um
momento como esse você só pensa em fazer aquilo que pode e deu. Ou seja, essa
ação não poderia ser interpretada como sendo um resquício do egoísmo.
De certo modo
não poderíamos aliar o utilitarismo a certo egoísmo moral. Poderíamos dizer que
Luciana, no momento que escolheu aquelas pessoas para entrarem no seu veículo
além de estabelecer um critério de escolha entendeu que se morressem, outras
pessoas da comunidade sentiriam a falta delas. Ou seja, se ao sentir falta a
pessoa fica triste, isso não gera prazer, muito menos felicidade. Já como eles
estavam em uma situação difícil, poderia piorar ainda mais a infelicidade deles
se alguém morresse. Já como a teoria utilitarista tem por objetivo mostrar que
as nossas ações são regradas por sensações de dor e prazer, devemos sempre
fazer o possível para escaparmos da dor, pois isso nos leva a nossa felicidade
ou temos menos desprazer na vida. A minha felicidade se soma a felicidade dos
outros fazendo com que a minha sociedade seja feliz. Logo aquilo que eu
considero bom é algo que pode ser bom para todos, pois tem em si a mesma
finalidade, a de fugir da dor e buscar a felicidade.
O
egoísmo de certo modo também leva em consideração o que o sujeito entende como
sendo bom para ele mesmo. Mas a diferença é que ele, antes de agir, vai levar
em consideração somente aquilo que considera bom pra si, usando as outras
pessoas como meios de suas conquistas. Isso ocorre no utilitarismo, mas na
maioria das vezes está em jogo o bem comum de dada sociedade, o que nos faz
perguntar se é correto fazer isso tendo em vista a felicidade geral.
TEXTO
III - É correto usar as pessoas como meio para um fim?
1.
Até
agora tratamos de casos que envolvem o interesse dos outros de um modo um tanto
quanto secundário, como se fosse o papel de parede de uma problemática maior.
Chegou o momento de darmos uma olhada mais a fundo no que significa dizer que é
possível usar as pessoas como fim que não elas mesmas.
2.
Supomos
que você conheça um homem que sobrevive extorquindo mulheres. Ele as usa de tal
modo que elas não percebem que estão sendo roubadas pelo companheiro. Ele pede
dinheiro para comprar comida para os seus gatos, peças de computador e sempre
promete que vai devolver a quantia emprestada. Mesmo assim, elas não acham
estranho o comportamento desse homem, que além de viver pedindo dinheiro para
pagar suas contas, ele as trata mal. Esse homem está na verdade usando essas
pobres mulheres como meio de sua finalidade: viver bem sem desprazer, buscando
realizar a sua felicidade sempre tanto quanto for possível, que é viver às
custas dos outros. Isso seria por si só errado porque desrespeita um sujeito
enquanto possuidor de uma vontade e dignidade. Ou seja, dizemos que um ser
humano é digno de respeito porque possui a capacidade de raciocinar, que todos
os seres humanos têm inclusive eu. O que
está em jogo, portanto, é o como tratamos os nossos iguais. Devemos levar em
consideração os interesses dos outros. Mas por quê?
3.
Supomos
agora, que você é um policial e que está investigando um possível caso de
terrorismo. Você captura o suspeito, porém ele não quer falar. Você conversa
numa boa com o sujeito, explica a situação dele dizendo que se ele não
colaborar ele pode ser sentenciado a uma pena maior. Enfim, respeita o sujeito
como sendo um fim em si mesmo, e mesmo assim ele não quer cooperar com as
investigações. Depois você passa a ser intolerante e o tortura. Certo momento
um colega seu tem a ideia de sequestrar a mãe do sujeito, com a esperança de
que ao privá-la de sua liberdade o sujeito comece a dar o depoimento sobre o
caso. Ou seja, a ideia desse seu colega é bem simples: ele pensa em usar a mãe
do sujeito como meio de descobrir onde está a bomba, tendo em vista salvar
outras pessoas que podem morrer, caso for detonada. Se vocês não fizerem isso
ele não vai falar e muitas pessoas poderão morrer por causa desse
irresponsável. Você acha correto fazer isso?
4.
Se
você respondeu que sim é correto torturar a mãe do bandido é porque você é um
utilitarista e está pensando no bem maior de outras pessoas. Caso você
respondeu que não é correto fazer isso porque ela é uma pessoa e deve ser
respeitada como tal então não poderia ser correto para você, torturar o
terrorista. Uma das críticas ao utilitarismo é justamente essa: que ele não
consegue respeitar os direitos individuais. Uma vez que tal tese se compromete
somente com um cálculo de prazer e dor, então o que é certo a fazer é aquilo
que propicia maior felicidade para o todo e em casos isolados, onde os direitos
e vontades dos outros não estejam em jogo. A mãe do sujeito nesse último
exemplo mostra justamente isso: a vontade dela não é respeitada se acaso você
acreditar que o melhor a ser feito é justamente trancá-la em uma cela como modo
de torturar o teu suspeito. Por outro lado parece legítimo fazermos isso tendo
em vista o bem comum. Se não torturarmos a mãe do sujeito teremos um monte de
pessoas mortas e é isso que não queremos.
5.
Continuando
a ferir a dignidade alheia, vamos ao terceiro exemplo: após uma grande explosão
sobrevivem apensas cem pessoas que estavam dentro de um bunker situado na
região do círculo polar antártico. Após a explosão as geleiras evaporam,
restando apenas as rochas, terras e o bunker. O problema agora é como manter a
vida, tendo em vista que os recursos que garantem a vida como água e comida evaporaram
ou viraram pó, a única saída que o grupo encontrou de manter a vida dessa nova
sociedade pós-apocalíptica é matando os 17 homens com mais de quarenta anos e
usando a sua carne para a nutrição. A
primeira vista isso é horrível, porque não consideramos correto matar e comer a
carne de um ser humano. Mesmo assim, pode ser considerada tal ação como
correta, o certo a se fazer naquelas circunstâncias. A escolha daqueles 17
homens com mais de quarenta anos não foi por um acaso; foi feito um cálculo
baseado na relação custo beneficio. Os outros homens mais novos são mais fortes
e por isso conseguem erguer, se preciso, alguma parede, defender a nova sociedade
de algum animal mutante remanescente da explosão.
6.
Nestes
dois últimos casos não julgamos ser tão errado assim não respeitar as
pessoas
como fim em si mesmas. Embora que no primeiro exemplo achamos horrendo e triste
ver um homem se aproveitando de várias mulheres em benefício próprio. O que
distingue esses dois últimos casos do primeiro, são as circunstâncias. O homem
aproveitador poderia trabalhar para viver bem, mesmo assim escolhe sobreviver
do que as mulheres lhe dão. Os outros dois casos são caracterizados pelo fato
que em condições normais, não faríamos isso. Finalmente, isso seria desculpável
porque não é natural das pessoas comerem umas às outras, muito menos torturar a
mãe de alguém (salvo no caso do psicopata sádico, mas aí a pessoa tem um
problema na região do cérebro que controla nosso senso de justiça e o
impossibilita a pensar diferente as suas relações com os outros).
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