INTRODUÇÃO
As competências desenvolvidas na escola tanto de nível fundamental quanto de nível médio devem ser entendidas de formas diferenciadas. Começo afirmando uma coisa tida como trivial, pois muitas vezes, nós enquanto educadores, cometemos erros terríveis quando usamos um mesmo plano de aula para a turma do último ano do ensino fundamental, e para os alunos do primeiro ano do ensino médio. Desta forma podemos nos perguntar como a relação aluno-professor pode ser estabelecida da melhor maneira possível e como esta questão pode estar relacionada com o desenvolvimento educacional do aluno (parece trivial novamente o que disse, mas noto que às vezes existe certa dificuldade em se fazer esta relação).
O que irei apresentar foi o que observei em duas escolas: uma de ensino fundamental – chamarei de escola A – e outra de ensino médio – chamarei de escola B (não citarei nomes ). Resolvi fazer esta observação em duas escolas porque ambas atendem indivíduos com diferenciadas idades e focam o currículo com objetivos diferenciados, visto que a matéria que irei desenvolver com os alunos é a de filosofia, e esta é obrigatória para alunos tanto do fundamental quanto do médio. Outro aspecto importante de ser mencionado é que a vida profissional dos educadores de ambas as escolas é completamente cheia, ou seja, eles não dispõem de muito tempo para planejamento de suas aulas (assim podemos nos perguntar até que ponto um professor conseguirá ser um bom professor para os seus alunos e como esta questão se reflete no momento de se relacionar com eles – é bom, ruim???).
A observação teve como caráter avaliativo três eixos temáticos:
a) Aspectos gerais da escola: com a escola se apresenta no geral para os alunos e como ela está sendo inserida no cotidiano escolar deles (é só mais um lugar de encontro, ou podemos dizer que é uma instituição onde os alunos procuram uma relação com o saber concisa?)
b) Como a comunidade escolar se envolve no cotidiano da instituição escola?
c) A questão cultural é trabalhada de maneira fluente no contexto escolar? Até que ponto é valido ou não trabalhar a cultura dos alunos?
Desta forma, podemos ter um panorama geral daquilo tudo que iremos encontrar (ou não) dentro da escola pública num âmbito mais geral.
ESCOLA A
A escola A se encontra em um bairro de periferia da zona extremo-sul de Porto Alegre. Atende em torno de uns 800 alunos em dois turnos de funcionamento. A entrada para o turno da manhã ocorre às 7h e 30min, e o horário para o turno da tarde ocorre as 13h e 15min. O turno ao qual farei referência é o da manhã, pois é o horário que as crianças dos anos finais estão na escola.
A ENTRADA
Os alunos vão chegando de manhã, uns vêm brincando outros conversando, ou então, sonolentos (para eles é complicado o fato de terem que acordar cedo para irem estudar – é o horário ao qual deveriam estar dormindo para eles). A rotina deles começa na escola (vê-se claramente que há uma relação de companheirismo ) e isso tem como consequência o fato que as primeiras pessoas que eles vêm no turno da manha, muitas vezes, não são os familiares e sim os colegas e os professores, sendo notável um envolvimento maior com estes sujeitos que a própria família, visto que a os pais destes alunos saem para trabalhar às seis e meia da manha, ou acordam mais tarde, ou ainda trabalham com escalas diferenciadas, inviabilizando o convívio direto.
Como estes alunos moram relativamente próximo à escola, eles vêm sozinhos caminhando pela estrada. O que é interessante neste rito é que a rua acaba virando o espaço pra eles se expressarem de tal maneira que chega muitas vezes a ser abusivo. Eles invadem o espaço dos carros, não respeitam aos conhecidos, põem apelidos e acabam de certa forma denigrindo a sua própria imagem. Desta forma podemos analisar que o ritual de ir à escola é uma forma de se libertar das regras da casa onde na maioria das vezes eles não participam da composição destas, e acabam por infringi-las por não saber o porquê de sua aplicabilidade no convívio familiar. Assim, desta forma se apresenta o rito inicial como uma forma de libertação de algo que não lhes pertence.
Quando chegam à escola percebem que o espaço de brincadeiras mudou. A brincadeira é um pouco mais sutil, ou seja, eles se dão ao trabalho de reordenar esta atividade, tendo em vista que se esta continuar da mesma forma que na rua, acaba virando em punição (coisa que não querem, pois os pais não admitem esse tipo de comportamento por se tratar de uma relação de obrigação: a do pai é dar condições de vida para o filho, e a do filho de estudar). O comportamento muda muito (mas não completo). A característica intrínseca de cada aluno
Como são alunos de sétima série, oitava ou sexta, eles não possuem mais a necessidade de se formar uma fila, e assim o professor os chama no pátio achando que todos vão subir de maneira educada (a professora vai à frente e os alunos atrás). Até que todos os alunos cheguem à sala demora em torno de uns 10 minutos. Assim inicia o primeiro período da aula.
O DECORRER DAS AULAS
A primeira aula da manhã de segunda feira da turma da oitava série é português. Eles não gostam muito desta matéria porque eles têm que decorar um monte de regrinhas e escrever o que pede o exercício (muitos tiveram a coragem de me dizer isso, com a professora ao lado). A aula começou, a professora cumprimentou os alunos e fez a chamada. Até o término da chamada, decorreram-se vinte minutos do período de 45 minutos. Era notável uma euforia contida dentro dos alunos,e uma vontade enorme de transgredir as regras da aula. Durante a chamada foram feitas 17 interrupções por parte da professora para mantê-los atentos (e se manter atenta) para não dar falta a nenhum aluno que não precisasse.
A aula começou, o assunto era objeto direto e indireto. Quando a professora começou a falar a turma parou por cinco minutos e a escutou. Não demorou muito para que as conversas paralelas tomassem conta da aula. Aparentando ser uma medida desesperadora, a professora começou a escrever no quadro o que eram os objetos diretos, indiretos, pra que serviam e como eram aplicados aos verbos ( os VTD’s, VTI’s e VTDI’s que já conhecemos muito bem). Continuando a escrever no quadro, a professora, a turma começa o falatório e a bagunça (um pouco contida). Repentinamente a professora interrompe o que estava fazendo e xinga aos alunos dizendo que isso o que ela está passando é importante para o ensino médio, que se acaso eles não souberem aquilo que ela está passando a eles, não entenderão nada no primeiro ano e consequentemente irão rodar.
Podemos ver que a professora possui certa preocupação no que diz respeito à continuidade dos estudos de seus alunos. O problema consiste no fato de que ela acaba não conseguindo mostrar a eles a real importância daquilo que ela está ensinando. Perguntei a alguns alunos se eles produziam textos em sala-de-aula, todos me disseram que não. Ai, podemos nos perguntar se vai ter alguma serventia a eles entender o que é verbo transitivo direto ou indireto se eles não praticam os seus aprendizados na hora de produzir um texto. Fica complicado a gente exigir compreensão de nossos alunos se a gente não consegue mostrar a eles a utilidade das coisas que estão aprendendo.
Bateu para o segundo período, um aluno entrou atrasado com a autorização da direção. Ele apresentou à professora o bilhete e se sentou. Ela continuou a aula. Neste segundo momento ela escreveu os exercícios no quadro e colocou a data da próxima prova. Todos os alunos ficaram apavorados, pois a prova era para a próxima semana.
Terminou a aula de português. Os alunos permaneceram na sala a espera do próximo professor (acho que a minha presença intimidou um pouco a relação que eles possuem com seus professores realmente). Mudaram de lugar, conversaram, trocaram de classes.A próxima aula era ciências. Os alunos gostavam mais desta aula que as outras. Antes do começo da aula perguntei a eles o porquê desta preferencia. Eles me disseram que o professor era divertido, que não passava muito conteúdo e que eles entendiam o que estava sendo proposto pelo educador. Assim desta forma começou a aula.
O professor entrou sério na sala-de-aula, colocou as suas coisas em cima da classe, separou o caderno de chamadas e começou a repetição do ritual. Foram feitas, durante a chamada, nove interrupções, com o mesmo intuito que a professora de português (foram menos). A chamada durou em torno de uns cinco minutos ou seis (não me recordo com exatidão). O assunto da aula era bebida alcoólica. O professor colocou no quadro uma espécie de roteiro do que ia ser discutido em aula:
1. O que são bebidas alcoólicas
2. Como as pessoas se embebedam
3. O que o álcool causa
4. Do que é feito
A aula iria ter uma interrupção: o recreio.
O professor começou a sua aula explicando que as bebidas alcoólicas são bebidas que causam dependência se acaso forem ingeridas em grande quantidade, que podem causar doenças graves (como cirrose), que o consumo era proibido para menores de idade e se caso os pais permitissem eles poderiam ser presos. Foi neste instante que surgiu a primeira manifestação da sala de aula:
-Mas professor, eu já bebi bebidas alcoólicas e não aconteceu nada aos meus pais.
O professor olhou sério para o aluno e perguntou:
-Eles te deixaram beber?
O aluno respondeu:
- Não.
-Alguém denunciou os teus pais?
-Não
Seriamente ele respondeu a manifestação do aluno:
- como eu havia dito antes pode ocorrer que os teus pais tenham que se explicar sim a polícia, mas o fato de tu teres bebido escondido deles e ninguém ter denunciado isso a polícia, foi por isso que os teus pais não foram indiciados por nada.
Deu para notar que a intervenção do aluno tinha um intuito um pouco malicioso pela forma que foi elaborada a pergunta. Durante a sua manifestação ele sorria com certo ar de deboche, tentando desconstruir a aula do professor.
Depois desta intervenção o professor continuou a explicar os malefícios do consumo em excesso, até que repentinamente uma menina perguntou – séria – se isso “mexia muito com a pessoa”. Foi neste instante que eu percebi o porquê que os alunos o achavam um bom professor. Ele realmente sanava as suas dúvidas de maneira direta, e não tediosa, mostrava que havia certas utilidades para aquilo que ele estava ensinando, no meio das explicações ele fazia algumas piadas que facilitavam o entendimento, de tal modo que os alunos anotavam algumas coisas quando o professor mandava.
Após o recreio era a continuação da aula. Foi neste exato momento que eu percebi o quanto o recreio desconstrói uma organização já pré-estabelecida. Os alunos voltaram muito agitados. O professor se sentou, reorganizou as suas coisas. Pediu silencio por dez minutos e colocou o último tópico no quadro que seria trabalhado:
Do que o álcool é feito.
Neste instante ele distribuiu uma cópia de um texto para cada aluno ler com cinco perguntas para serem respondidas. Eles se olharam, conversaram um pouco e foram fazendo aquilo que o professor propunha. Os alunos entregaram os seus trabalhos como estavam no final da aula e foram para a educação física.
Quem dava a aula de educação física era a própria professora de português. É certo: eles não gostavam da professora de português porque ela dava a aula de português. Mas gostavam da educação física porque ela realmente não dava a aula, e sim disponibilizava a bola para eles jogarem futebol (meninos), ou vôlei (meninas) – foram os alunos que disseraam isso.
Vê-se claramente que a relação com estes dois professores era totalmente diferenciada, ambos estavam realmente interessados em ensinar alguma coisa, mas o que realmente os distinguia era a maneira como eles passavam o conteudo.
A VOLTA PARA CASA
Pode ser notada uma pressa incontrolável de chegar a casa. Parece que a escola está afugentando os alunos. As brincadeiras recomeçam e a relação se estreita novamente. A tarde é longa, a brincadeira e os deveres fora da escola passam a existir novamente.
CONSIDERAÇÕES SOBRE A ESCOLA DE ENSINO FUNDAMENTAL
Analisando esta turma durante o período de aula pode ser notado três coisas:
a) Que eles são impacientes no que diz respeito ao aprendizado: eles querem entender tudo de forma rápida, porém não conseguem ter disciplina no momento de estudar ou de ouvir o professor;
b) O professor muitas vezes não sabe como lidar com as situações que ocorrem no cotidiano escolar: não consegue focalizar a energia dos alunos, como também não organiza uma aula que seja atrativa;
c) No caso do professor que consegue manter uma aula boa, acaba tendo que mudar a organização da aula por conta do recreio: não será o caso de se repensar qual seria a melhor forma de organizar os períodos de aula. O ideal neste caso seria, ao meu ver, que as aulas fossem organizadas de tal forma que o recreio não interrompa o desenvolvimento da aula e desta forma melhor viabilizar o entendimento do assunto proposto pelo professor.
ESCOLA B
A segunda escola é de ensino médio (somente) e atende a alunos de diversas partes da cidade de Porto Alegre. É uma escola tida como central, e por muito tempo foi considerada a melhor escola do estado. Sofreu muito em 2007 com a questão da reorganização das turmas no meio do ano letivo. Esta escola atende alunos nos três turnos, e estes possuem histórias de vida diferenciadas. Esta escola possui um histórico marcante no que diz respeito a lutas e conquistas (principalmente durante o período militar).
Muitos consideram a escola B um lugar perigoso atualmente, em que as “crianças não vão para estudar e sim para se drogar”. O preconceito existente acerca desta escola denigre não só a imagem da escola, mas sim a dos professores e também a dos alunos, gerando desta forma uma espécie de determinismo do meio aplicado ao ambiente escolar. Assim sendo, as coisas que se ouve e as coisas que de fato são, diferem totalmente entre si viabilizando desta forma, uma dupla formalização do ambiente escolar, em que uma sobressai à outra.
O espaço em frente à escola é formado por um coreto e uma quadra de esportes. No coreto se juntam várias pessoas como se fosse um ponto de encontro, e a noite torna-se a casa de vários moradores de rua. Os alunos durante os recreios e os intervalos se encontram ali para ouvirem música, conversar, se divertir, lanchar, trocar ideias e praticar esportes. Ao término das aulas, pode ser notada uma grande movimentação (uns esperam os colegas saírem, outros vão direto para as paradas de ônibus, ou vão a pé para as suas atividades no turno da tarde).
A ENTRADA
A escola possui um grande espaço interno e externo. O pátio da escola é grande o suficiente para comportar uma quadra de esporte poliesportiva, um campo de futebol e um ginásio. Quando os alunos chegam, eles não entram diretamente no pátio da escola para esperar o horário de entrada. Eles ficam no coreto em frente à escola ou na quadra de futebol na praça em frente ao colégio.Aos poucos vão chegando os alunos, conversas começam, perguntas sobre o que o professor está dando em aula surgem. Sons, vozes, conversas marcam o cotidiano escolar, e desta forma delimitam os tipos de amizades que surgem. Os grupos se formam, os gostos se afinam (os desgostos também) e começa outro dia na escola.
O DECORRER DAS AULAS
A primeira aula da quinta feira à tarde é física d. A professora chega, repete o mesmo ritual de colocar as coisas em cima da mesa, separar a chamada e começar a sua aula. O pessoal do terceiro ano à tarde é considerado um pouco mais “disciplinado” que o pessoal da manhã, por se tratar de alunos com a faixa etária um pouco avançada. O assunto a ser trabalhado era termodinâmica, ciclos de Carnot.
A professora entrou na sala-de-aulae a primeira reação dos alunos foi a de ficar quietos. Como era metade do trimestre, a professora havia pedido um trabalho sobre termômetros, e aquele dia era o prazo final da entrega (a avaliação consistia em duas provas e dois trabalhos). Muitos alunos não tinham feito o trabalho, e estavam fazendo na hora da aula, e a professora (ao invés de intervir e perguntar para os alunos o porquê que não fizeram isso em casa) continuou a dar a sua matéria como se isso não.
Muitas vezes, os alunos questionavam a atitude da professora de “despejar o conteúdo no quadro”, e em resposta a isso ela dizia não ser a mãe deles, e que a prova era pra semana que vem e que era para eles terem estudado, visto que eles tiveram muito tempo para estudar (ela justifica isso dizendo que a prova havia sido marcada há quase um mês atrás. Podemos agora nos perguntar como assim marcada? Como assim eles tiveram tempo para estudar? Aquela matéria que ela estava dando aos alunos foi assimilada por eles? Como vai ser o rendimento deles? Pode ser visto que ela mais estava preocupada com o tempo que lhe era disposto que com o fato dos seus alunos não estarem aprendendo).
O final do período se aproximava, e o desespero aumentava. Muitos dos que estavam fazendo o seu trabalho em sala-de-aula entregaram como estava os seus escritos, outros conseguiram terminar o que faltava. Neste exato momento me perguntei se a minha função como educadora seria essa: a de seguir um currículo e estabelecer prazos para que as coisas sejam entregues, sem me preocupar com o aprendizado dos meus alunos (tenho certeza que esta não é somente a minha função, mas isso é assunto para outro momento).
A troca de períodos ocorre. Os alunos podem sair da sala-de-aula para irem ao banheiro, ou beberem água. O próximo período é o de matemática. A aula começa com o mesmo ritual que o dos outros professores. O professor começa a chamada e desta vez, não é pedido o silêncio do aluno pelo educador, e sim ela é feita no meio da bagunça. Uns alunos que não ouviram a chamada reclamam ao professor este fato, e ficam indignados com este por não colocar presença para eles. A chamada é sagrada em todos os casos analisados (é a partir dela que se pode saber quem são os alunos ausentes, e assim encaminhar o problema para o serviço de orientação).
Os alunos indignados saem da aula e começa a exposição de conteúdos. O assunto do dia era geometria analítica. Os alunos que estavam na sala-de-aula, uns dormiam, outros copiavam, ou ainda saiam da aula e ficavam pelos corredores. Desta forma transcorreram os dois períodos de matemática. O recreio chegou, o radio foi ligado.
Durante o recreio a movimentação é muito diferente da escola de ensino fundamental. Os alunos podem ficar parados conversando, na biblioteca, na cancha de esportes jogando futebol ou ainda saem para pegar lanche. A rádio da escola é organizada pelo grêmio estudantil, e os alunos pedem as músicas que querem ouvir durante o recreio. Uns pedem funk outros curtem rock, outros gostam de pagode. O recreio se encerra, e começa o quarto período.
Aquele dia, por ventura, tinha aula de ensino religioso. A professora chegou colocou as coisas em cima da mesa, e ao invés de começar a chamada, ela começou a aula.Os alunos a cumprimentaram, ela escreveu no quadro o assunto do dia, e começou a falar. O tema escolhido era os problemas no mundo atual e como isso se refletia na ideia de religião. Esta foi a aula que eles conversaram sem serem sujeitados a críticas sobre o seu comportamento. A aula foi interessante de certa forma, e os alunos se interessaram na discussão.
O final da aula chegou, a troca de períodos ocorre novamente, e entra na sala-de-aula a professora de literatura. A aula desta transcorreu de maneira u tanto complicada. Os dois períodos finais que se seguiam, seriam períodos complicados, pois a professora enquanto autoridade não existia para eles. Eles a desrespeitavam, falavam em aula, eram grosseiros com ela e não faziam o que ela pedia. A professora perguntou a eles se eles haviam lido o livro que pedira. Somente dois alunos leram, o resto da turma começou a dar desculpas esfarrapadas dizendo que não tiveram tempo num tom de gozação.
A professora relevou o problema apresentado pelos alunos e continuou a sua aula, comentando o livro. “Memórias Póstumas de Brás Cubas” é um livro um tanto interessante, só que não pode ser visto como um meio de entendimento de um período literário. Ela continuou explicando a sua matéria até o final da aula com bagunça, barulho e muita conversa por parte dos alunos.
CONCLUSÂO
Nas duas escolas pouco foi discutido em sala-de- aula quem são estes alunos que frequentam a escola. Não foi levado em consideração o como estes alunos estão fazendo parte do cotidiano escolar, muito menos como se dá a relação deles com a escola, ou ainda feita uma investigação com a tentativa de entender o que acontece para que eles não se dispersassem. Em ambos os espaços escolares esteve presente a cobrança de prazos por parte dos professores para que os alunos conseguissem cumpri-los.
A percepção de que os alunos estavam simplesmente cumprindo a sua obrigação de receptores dos conteúdos era nítida. A questão agora era tentar entender se os professores enxergavam estes indivíduos como alunos, ou por ser essa a concepção de aluno (de meros receptores), os alunos tinham que se submeter a este tipo de organização escolar. Notei que muitas vezes a relação de poder era testada durante as aulas pelos alunos, e desta forma podemos nos perguntar que tipo de relação que se formou com aluno e professor? É d certa maneira saudável?
Outro aspecto relevante, é que os alunos estavam habituados em ter as coisas prontas. Eles não precisavam buscar as coisas (mesmo com aquele trabalho de física sobre termômetros, muitos copiaram o que estava escrito nos livros e entregaram a professora). Digo isso, pois me foi aparente o fato que os alunos não questionavam, não procuravam entender, e desta forma aceitavam – com imposição – aquilo que era proposto pelos professores. Desta forma podemos notar que a organização e mobilização fazem parte do contexto social fora da sala-de-aula, se refletindo de certa forma nas eleições do grêmio e de direção.
Assim podemos nos perguntar que tipo de alunos estamos formando? Pelo visto ainda não é do tipo crítico.
O professor aparece no contexto escolar como aquele que ensina os alunos o que eles têm que aprender. Na escola de ensino fundamental, na fala da professora, vê-se isso presente, pois eles precisavam daquela matéria para ingressarem no ensino médio. A questão não é essa a meu ver, a questão deveria tanger o fato de que a vida continua após a escola, e que para isso, os alunos deveriam estar preparados para viver em sociedade (de certa forma a educação colabora com isso).
Para tanto os professores deveriam estar preparados para isso. O problema consiste no fato de tentarmos entender se os professores têm condição para montar uma aula que seja interessante e que valorize os alunos (e a eles também) e que trabalhe com a concepção de que existe uma vida, e desta forma contextualizar a cultura do aluno no espaço escolar. Claro, falando assim até parece fácil. Temos que pensar que tudo isso faz parte de uma organização nova e uma nova estruturação da escola. Para tanto é preciso muita disciplina para que o objetivo seja alcançado de maneira produtiva e eficaz, visando ao rendimento do aluno de forma proveitosa para ele em sociedade.
Assim concluo afirmando que o papel do professor vai muito além do que o simples repositor de conteúdos, mas sim é por intermédio dele que o aluno descobre que há uma sociedade e que ele precisa se inserir nela. Para tanto é preciso ver o currículo de forma diferenciada, e não como um mero apontador do que tem que ser discutido e alcançado em sala-de-aula, e sim como uma forma de entender o processo de aprendizagem dos alunos.
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