O saber desde os tempos mais remotos sempre esteve atrelado à ideia
de poder. Esta associação tinha por objetivo segregar, diferenciar e viabilizar
o comando à(os) um (alguns) individuo(os) que tivessem conhecimento, e poder
econômico. O ambiente escolar é composto com pequenas características atreladas
a este domínio, e por muitas vezes acaba por reproduzir as questões e
problemáticas colocadas no mundo.
Aristóteles, filósofo grego,
dizia que o homem por excelência, era aquele que proveria o seu sustento. Por
isso deveria ser educado para desempenhar o seu papel tanto no meio familiar
(esfera privada), quanto no meio estatal (esfera pública). Para desenvolver o
seu papel de cidadão, não poderia desempenhar atividades que estivessem ligadas
diretamente com o sustento da vida, e sim deveria estar preocupado com as
deliberações que a polis teria que fazer. Platão vai dizer que o melhor tipo de
governo é o reinado dos reis filósofos, pois além de conhecerem o que uma
sociedade precisaria, ele não vai governar para os seus próprios interesses.
Isso porque Platão pregava ser necessário o desfazimento dos bens individuais
quando que assumido um cargo público, tendo em vista certa comunidade de bens.
Já Hobbes, por outro lado, diz que a imposição de forças no estado de natureza
humano, vai contar para que sobrevivamos, e a condição do poder em última
análise, vai estar submetida a eterna disputa de busca da sobrevivência e que
para ordenar tudo isso é necessário um contrato que estabeleça princípios e um
governante. Neste caso, é na figura do governante que vai estar a imposição da
ordem, em última análise o poder.
Assim como os filósofos, vemos necessária na atualidade tal relação
e ensinamos aos nossos alunos e alunas. Essa relação entre saber e poder também
se estabelece dentro da sala de aula. Vemos isso presente quando um professor
impõe ao aluno questões que ele não está habituado, e que a simples
assimilação, muitas vezes se torna um problema porque foi imposto pelo
professor. Aí entra a figura do aluno rebelde que fica testando a paciência do educador,
tentando desvirtuar a aula como uma forma de tentativa de impor o poder sobre
aquele “opressor” (sob a ótica do aluno). Notamos também que a relação entre
poder e saber ocorre nos pequenos grupos entre alunos que se estabelecem entre
eles. Notamos muitas vezes, esparsos, implícitos ou inscritos em suas ações os
parâmetros para a escolha daquele individuo, que muitas vezes o é, simplesmente
para fazer os trabalhos para o resto do grupo (aí entra a figura do saber) e a
proteção do chefe do grupo (aí entra o poder), sendo notada a opressão que o
aluno escolhido sofreria por parte dos colegas se continuasse sozinho (claro
isso pensando uma classe que não tenha noções básicas de comportamento no
espaço escolar muito menos respeito). Desta forma vemos que o poder se
relaciona com o conhecimento como uma forma de imposição.
Agora, podemos voltar para a sociedade que vivemos. Conseguimos
perceber, por vezes, que o que conta são as relações que são estabelecidas
entre pessoas que representam certo poder. Grande exemplo disso é o período
eleitoral. Muitas vezes votamos naqueles que aparecem mais por deterem melhor
“condições” de governar, nos baseando, muitas vezes, pelo currículo do
candidato exposto no período eleitoral. Aparentemente continua a ideia do
senador biônico só que o candidato fala no período eleitoral tudo aquilo que só
o narrador falava anteriormente, condicionando o seu poder ao meio publicitário
ou o meio de comunicação, que o candidato, por sua vez paga fazendo alianças e
prometendo ações para a iniciativa privada. Essa relação de poder é cíclica. O
que é pior nisso tudo, é que ela se repete, não sendo um movimento sempiterno
porque as pessoas envolvidas nele vão morrendo, mas a sua forma estrutural
continua sendo a mesma e é esta que ensinamos em sala de aula.
A sala de aula por vezes se torna o ambiente de reprodução da
sociedade. Muitos teóricos defendem a ideia de que a escola deve educar para a
vida, e realmente é isso que muitas vezes ocorre. Parece que não pelo fato de
se ter a mesma estrutura hierárquica do professor sobrepondo-se aos alunos e a
regra de transmissão conteúdo. O detalhe, é que mesmo ocorrendo isso, o
professor acaba se envolvendo com os alunos, e a preocupação dele acaba virando
o entendimento. É na relação de poder que o professor enquanto professor vai
estar submetido ao meio escolar, e desta forma se torna precisa certa relação
entre estes seres. Se formos pensar mais a fundo, do que é constituída a
organização do espaço escolar, como ela se institucionaliza no ambiente
escolar, podemos ver que o currículo é multifacetário, e no momento que
atribuímos esta característica à ele, podemos pensar sim o porque que a educação é constituída de tal forma.
É a organização curricular que vai estabelecer o que vai ser
discutido ou trabalhado em aula. Notamos desta forma que as ideologias, a
relação de poder e a forma de expor o conhecimento, são características que as
pessoas no geral não atribuem à ideia de currículo. O entendimento que se tem
sobre o assunto é grandioso e vasto, porém a ideia de currículo ainda se vê
muito atrelada à uma ordem de dados que devem ser expostos de tal forma, senão
a reprodução do entendimento e do conhecimento não se dá. Podemos pensar no currículo
onde o poder é tido como parte integrante do processo educacional. Em
todos os tempos ou espaços destinados ao ensino podemos notar na educação e
concepção de mundo a cultura da classe dominante sobrepondo-se a cultura e à
educação dos indivíduos submetidos ao meio escolar. Desta forma o currículo apresenta-se
como uma maquina ideológica e ao mesmo tempo um separador de pessoas.
A teoria leva em consideração as ideologias
anteriores contidas na teoria critica. Para tanto é preciso entender que não se
trata de uma sobreposição de ideias, mas sim de uma organização que consegue
utilizar, aprimorar e criar novos propósitos para se discutir o que é o
currículo. Podemos ver que perante esta teoria o currículo ainda está em
constante movimento, e é neste movimento que estamos inseridos como educadores
e é assim que devemos nos enxergar enquanto parte
atuante da formação dos nossos alunos. É elementar o fato de que o currículo, segundo Tomaz Tadeu, transmite ideias, é um aparelho ideológico, transmite a ideologia dominante e por consequência é um território político.
Concluo afirmando que como o currículo faz
parte da formação do individuo para a sociedade, de certa forma, torna-se
indispensável considerá-lo uma organização em constante movimento, pois a
sociedade tem esta mesma configuração. Esta organização de conteúdos deve ser
pensada para um indivíduo aluno. Mesmo com a relação entre saber-poder, temos
que ter consciência sobre o nosso papel em sala de aula, e entender que o nosso
ele vai muito além de meros reprodutores de um currículo já organizado para
formar os nossos alunos. Só assim o currículo, a meu ver poderá ser, como diria
Tomaz Tadeu:
“lugar, espaço, território”
“a relação de poder”
“Autobiografia, nossa vida, curriculum vitae: no currículo que
forma a nossa identidade”
“Texto, discurso, documento”
DOCUMENTO DE IDENTIDADE
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