quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

O CURRÍCULO


Podemos pensar a educação de vários modos. Quando afirmamos isso estamos deixando de lado a ideia de que o currículo deve ser único e simplesmente atrelado às funções burocráticas do meio escolar. Tenho certeza de que quando falamos em currículo estamos expressando o que realmente perfaz o caminho do indivíduo aluno e do individuo professor, sendo ambos muitas vezes vistos como partes antagônicas do processo educacional. O currículo, portanto é multifacetário: Vimos que nesta relação (entre aluno e professor) o professor se mostra como sendo aquele que constrói o conhecimento a partir do entendimento das coisas atreladas à sua matéria, onde muitas vezes este individuo não consegue trabalhar temas transversais por estar tão habituado com a sua matéria. O individuo aluno por vezes, se mostra estando submetido a esta forma de educação.

A função do professor muitas vezes está submetida ao sistema de notas. Os professores procuram estar em dia e fazer as suas partes para que os alunos não sejam prejudicados. Há a relação do professor com o cumprimento de prazos, onde a eficiência dele está atrelada a isso. É como se o índice de qualidade de um professor fosse medido através disso (sendo que todos nós sabemos não ser essa a medida de competência), não há outra forma de mensurar isso a não ser desta forma, aparentemente. O problema disso se encontra na organização social ao qual estamos inseridos, pois vivemos em uma sociedade que presa por tal valor, onde o tempo que estamos utilizando significa ganhar e ganhar, e quando não utilizamos da mesma lógica do “ganhar” estamos perdendo por fazer coisas interessantes para o conhecimento. E desta forma parece que a organização curricular deve estar de acordo com um plano de metas a serem cumpridos e só. É óbvio que não tem como concordar com isso porque a educação é muito mais que uma mera formalização do sistema educacional. É muito mais que a simples distribuição de tarefas e a sobreposição de ideais. É muito mais que a relação antagônica que o próprio sistema tenta impor sobre os indivíduos no espaço escolar. E assim sendo, o currículo também não é uma mera listagem de conteúdos, e sim pode ser chamado de processo evolutivo que vai estar presente na educação do individuo, submetido à organização do espaço, e às características da turma.

Para que estes problemas comecem a ser resolvidos devemos pensar em primeiro lugar na tentativa de se estabelecer um diálogo. Tentar entender o que o aluno traz como bagagem cultural para dentro da sala-de-aula. Devemos ensiná-los que responsabilidades existem e que o mundo fora do ambiente escolar é grandioso e vasto (eles têm escolhas a serem feitas e, portanto é necessário ter prudência na hora de decidir as coisas tanto no campo social quanto no familiar). Isso faz parte do currículo, faz parte do cotidiano escolar e dos laços estabelecidos entre os alunos e professores.

Desta forma, vimos que o currículo se constrói através dos tempos e de como o professor passa o conteúdo aos seus alunos, pois as suas convicções vão fazer com que a aula seja pensada de tal forma e não de outra. Vimos que o currículo é um lugar, um espaço determinado onde construímos o nosso conhecimento, as nossas convicções e ideias. Vimos também que ele é a trajetória que perfaz toda a vida do aluno como também a do professor, ele perfaz a vida do aluno e do professor (é nele que vemos o programa dos conteúdos a serem ministrados nas aulas). Por último o currículo faz parte da nossa formação, e por fazer parte dela acaba submetendo 

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

A RELAÇÃO ENTRE SABER E PODER


O saber desde os tempos mais remotos sempre esteve atrelado à ideia de poder. Esta associação tinha por objetivo segregar, diferenciar e viabilizar o comando à(os) um (alguns) individuo(os) que tivessem conhecimento, e poder econômico. O ambiente escolar é composto com pequenas características atreladas a este domínio, e por muitas vezes acaba por reproduzir as questões e problemáticas colocadas no mundo.

 Aristóteles, filósofo grego, dizia que o homem por excelência, era aquele que proveria o seu sustento. Por isso deveria ser educado para desempenhar o seu papel tanto no meio familiar (esfera privada), quanto no meio estatal (esfera pública). Para desenvolver o seu papel de cidadão, não poderia desempenhar atividades que estivessem ligadas diretamente com o sustento da vida, e sim deveria estar preocupado com as deliberações que a polis teria que fazer. Platão vai dizer que o melhor tipo de governo é o reinado dos reis filósofos, pois além de conhecerem o que uma sociedade precisaria, ele não vai governar para os seus próprios interesses. Isso porque Platão pregava ser necessário o desfazimento dos bens individuais quando que assumido um cargo público, tendo em vista certa comunidade de bens. Já Hobbes, por outro lado, diz que a imposição de forças no estado de natureza humano, vai contar para que sobrevivamos, e a condição do poder em última análise, vai estar submetida a eterna disputa de busca da sobrevivência e que para ordenar tudo isso é necessário um contrato que estabeleça princípios e um governante. Neste caso, é na figura do governante que vai estar a imposição da ordem, em última análise o poder.

Assim como os filósofos, vemos necessária na atualidade tal relação e ensinamos aos nossos alunos e alunas. Essa relação entre saber e poder também se estabelece dentro da sala de aula. Vemos isso presente quando um professor impõe ao aluno questões que ele não está habituado, e que a simples assimilação, muitas vezes se torna um problema porque foi imposto pelo professor. Aí entra a figura do aluno rebelde que fica testando a paciência do educador, tentando desvirtuar a aula como uma forma de tentativa de impor o poder sobre aquele “opressor” (sob a ótica do aluno). Notamos também que a relação entre poder e saber ocorre nos pequenos grupos entre alunos que se estabelecem entre eles. Notamos muitas vezes, esparsos, implícitos ou inscritos em suas ações os parâmetros para a escolha daquele individuo, que muitas vezes o é, simplesmente para fazer os trabalhos para o resto do grupo (aí entra a figura do saber) e a proteção do chefe do grupo (aí entra o poder), sendo notada a opressão que o aluno escolhido sofreria por parte dos colegas se continuasse sozinho (claro isso pensando uma classe que não tenha noções básicas de comportamento no espaço escolar muito menos respeito). Desta forma vemos que o poder se relaciona com o conhecimento como uma forma de imposição.

Agora, podemos voltar para a sociedade que vivemos. Conseguimos perceber, por vezes, que o que conta são as relações que são estabelecidas entre pessoas que representam certo poder. Grande exemplo disso é o período eleitoral. Muitas vezes votamos naqueles que aparecem mais por deterem melhor “condições” de governar, nos baseando, muitas vezes, pelo currículo do candidato exposto no período eleitoral. Aparentemente continua a ideia do senador biônico só que o candidato fala no período eleitoral tudo aquilo que só o narrador falava anteriormente, condicionando o seu poder ao meio publicitário ou o meio de comunicação, que o candidato, por sua vez paga fazendo alianças e prometendo ações para a iniciativa privada. Essa relação de poder é cíclica. O que é pior nisso tudo, é que ela se repete, não sendo um movimento sempiterno porque as pessoas envolvidas nele vão morrendo, mas a sua forma estrutural continua sendo a mesma e é esta que ensinamos em sala de aula.

A sala de aula por vezes se torna o ambiente de reprodução da sociedade. Muitos teóricos defendem a ideia de que a escola deve educar para a vida, e realmente é isso que muitas vezes ocorre. Parece que não pelo fato de se ter a mesma estrutura hierárquica do professor sobrepondo-se aos alunos e a regra de transmissão conteúdo. O detalhe, é que mesmo ocorrendo isso, o professor acaba se envolvendo com os alunos, e a preocupação dele acaba virando o entendimento. É na relação de poder que o professor enquanto professor vai estar submetido ao meio escolar, e desta forma se torna precisa certa relação entre estes seres. Se formos pensar mais a fundo, do que é constituída a organização do espaço escolar, como ela se institucionaliza no ambiente escolar, podemos ver que o currículo é multifacetário, e no momento que atribuímos esta característica à ele, podemos pensar sim o porque que a educação  é constituída de tal forma.

É a organização curricular que vai estabelecer o que vai ser discutido ou trabalhado em aula. Notamos desta forma que as ideologias, a relação de poder e a forma de expor o conhecimento, são características que as pessoas no geral não atribuem à ideia de currículo. O entendimento que se tem sobre o assunto é grandioso e vasto, porém a ideia de currículo ainda se vê muito atrelada à uma ordem de dados que devem ser expostos de tal forma, senão a reprodução do entendimento e do conhecimento não se dá. Podemos pensar no currículo onde o poder é tido como parte integrante do processo educacional. Em todos os tempos ou espaços destinados ao ensino podemos notar na educação e concepção de mundo a cultura da classe dominante sobrepondo-se a cultura e à educação dos indivíduos submetidos ao meio escolar. Desta forma o currículo apresenta-se como uma maquina ideológica e ao mesmo tempo um separador de pessoas.

A teoria leva em consideração as ideologias anteriores contidas na teoria critica. Para tanto é preciso entender que não se trata de uma sobreposição de ideias, mas sim de uma organização que consegue utilizar, aprimorar e criar novos propósitos para se discutir o que é o currículo. Podemos ver que perante esta teoria o currículo ainda está em constante movimento, e é neste movimento que estamos inseridos como educadores e é assim que devemos nos enxergar enquanto parte atuante da formação dos nossos alunos. É elementar o fato de que o currículo, segundo Tomaz Tadeu, transmite ideias, é um aparelho ideológico, transmite a ideologia dominante e por consequência é um território político.

Concluo afirmando que como o currículo faz parte da formação do individuo para a sociedade, de certa forma, torna-se indispensável considerá-lo uma organização em constante movimento, pois a sociedade tem esta mesma configuração. Esta organização de conteúdos deve ser pensada para um indivíduo aluno. Mesmo com a relação entre saber-poder, temos que ter consciência sobre o nosso papel em sala de aula, e entender que o nosso ele vai muito além de meros reprodutores de um currículo já organizado para formar os nossos alunos. Só assim o currículo, a meu ver poderá ser, como diria Tomaz Tadeu:

“lugar, espaço, território”

“a relação de poder”

“Autobiografia, nossa vida, curriculum vitae: no currículo que forma a nossa identidade”

“Texto, discurso, documento”

DOCUMENTO DE IDENTIDADE








segunda-feira, 7 de novembro de 2011

A ORGANIZAÇÃO DA ESCOLA BÁSICA E SEUS DESAFIOS FRENTE À DINÂMICA SOCIAL


INTRODUÇÃO

O estudo do mecanismo envolto na educação básica é necessário para que entendamos como pais alunos e funcionários estão incluídos (ou excluídos) do processo educacional. Podemos pensar que a educação possui tal característica por estar condicionada em um período histórico, ou ter por base outro ideário, ou ainda possuir políticas que não condigam com a real necessidade do povo na área educacional. Notamos que as explicações são muitas e poucas realmente conquistam sua finalidade, e o fazem por conseguirem levar em consideração aspectos importantes como o tamanho do Brasil, a cultura difundida no país, o pensamento do povo que mora em tal localidade e como se dá a relação econômica nas diferentes regiões. E é a partir delas que se poderia discutir o que é realmente educação. Sendo assim notamos que muitos teóricos encontram os problemas no aparato educacional, e as soluções no aparato econômico, refletindo na crescente preocupação com esta área especifica em detrimento a outra.

Parto do pressuposto que a educação não deveria estar disponível ao bel prazer da economia. Como afirmava Cezar Benjamin, é preciso que a educação seja fim e não meio de se adquirir uma boa condição econômica como muitos especialistas no assunto defendem. O que quero destacar neste momento, não é a subordinação (com vias a uma redução ao absurdo) da educação para a economia, mas sim o problema que isso gera para a construção do conhecimento, e em ultima analise a formação do sujeito aluno que como o próprio termo já infere, é aquele ser que se encontra sujeitado ¹, submetido a um modelo educacional. Isso pode se refletir na falta de interesses que os alunos têm em aprender pelo fato de eles estarem na escola em busca de um diploma para conseguirem arranjar um emprego. Bem mais que isso, podemos notar que a escolarização para a população brasileira e para vários períodos históricos servia para a formação da mão de obra. Digo mais, na maioria dos períodos históricos se vê isso. Pode ser notada que a especificação do trabalho vai estar ligada em última analise a educação, e assim sendo podemos supor que então a educação teria uma serventia pro mundo do trabalho (que é o ideário que tentamos fugir). Notamos que em última analise esta especificação educacional sendo regulada pela economia, vai gerar um grande retrocesso em termos educacionais, pois não está


 
sendo pensada uma educação que vise à formação de um ser, e sim de um sujeito que estará responsabilizado por um cargo e desempenhando a sua função tecnicista no mundo do trabalho.

Não afirmo que não deva existir formação para o trabalho, só que agora transformar o espaço escolar no lugar para se conseguir somente esta finalidade é muito complicado. Pode ser visto que no parágrafo segundo da lei de Diretrizes e bases da educação brasileira aparece:

§ 2º A educação escolar deverá vincular-se ao mundo do trabalho e à prática social.”

A lei e a prática diferem em demasia. Pouco se fala de ações que visem à prática social, mas sim, as que visam ao mundo do trabalho. Isso também se reflete no conteúdo que é passado, ou nas provas amostrais aplicadas pelo poder publico. Podemos ver que na maioria das provas, as matérias a serem analisadas são matemática e português, onde as áreas sócio-históricas não são avaliadas (no caso do SAEB, prova Brasil e Provinha Brasil). É como se fosse esquecida a formação do individuo. Alem disso, vimos maiores preocupações por parte das escolas com estas duas matérias, que com as outras áreas do conhecimento (isso se reflete na distribuição de períodos. Geralmente matemática e português têm em média de três a quatro períodos por semana, enquanto geografia, história ou até artes possuem em média de um a dois períodos, ou ainda, não são postas na grade curricular do aluno). Isso é um problema, pois aparenta que não é importante a formação social do aluno. É como se este ser não fosse inserido na sociedade, e simplesmente posto nela de tal forma que as responsabilidades incutidas na vida dele, valessem mais que o próprio pensar e agir neste meio.



COMO SE DÁ A ORGANIZAÇÃO DO ESPAÇO ESCOLAR

Com o contexto atual da educação brasileira, é de suma importância conhecer sua organização.  Podemos começar a analisar o que ocorre com os conselhos escolares, onde deveria ser um lugar de discussão sobre a organização de seu ambiente: um espaço de propostas e real participação da comunidade. O que ocorre muitas vezes é que este espaço existe a caráter esporádico (para aprovação da prestação de contas), ou como órgão escolar de fechada, para cumprimento de lei (outros casos nem há a preocupação de se montar o conselho escolar com medo da sanção quando do não cumprimento da lei), ao invés de ser configurado como espaço de debate efetivo sobre o cotidiano escolar. O problema é que a atual formação deste espaço na escola vem sendo muito prejudicada pelos ideários atuais de gestão escolar. Como vimos, no momento em que se passa a aceitar um modelo de gestão escolar gerencialista, estamos abrindo as portas para que este espaço, em última análise, seja prejudicado, pois uma vez aceito um sistema cuja organização se baseia na figura do diretor, onde o diálogo por vezes não é travado, havendo uma imposição de princípios e valores, deslegitima a ação da comunidade escolar frente às decisões que na escola permeiam.

 Desta forma podemos ver que a organização do espaço escolar deveria estar submetido as deliberações da comunidade escolar, ao invés de a comunidade escolar estar submetida às deliberações da gerência escolar. Outro exemplo clássico de má organização escolar são os PPP’s (projetos políticos pedagógicos), onde por vezes são os mesmos por muito tempo, não respeitando as características e demandas da população, ou até sendo utilizados por anos.

Outro aspecto relevante é a subdivisão da educação básica em educação infantil, ensino fundamental e ensino médio. Cada uma destas etapas possui suas peculiaridades. A educação infantil, corresponde à faixa etária dos zero aos cinco anos de idade. Na LDB o artigo 29 expõe que:

“A educação infantil, primeira etapa da educação básica, tem como finalidade o desenvolvimento integral da criança até cinco anos de idade, em seus aspectos físicos, psicológicos, intelectual e social, complementando a ação da família e da comunidade.”

 Desta forma a finalidade da creche é que esta seja o espaço onde estas crianças possam desenvolver sua autonomia, encontrem a sua identidade, conheçam o convívio que se dá entre seres humanos, sendo tudo isso de maneira lúdica, onde a criança produza e obtenha o conhecimento. O ensino fundamental, por sua vez, compreenderia as crianças dos seis aos catorze anos, onde já seriam trabalhadas as produções textuais, o desenvolvimento do raciocínio lógico-matemático, entre outras questões. Muitos especialistas afirmam que com o aumento de mais um ano no ensino fundamental, ao invés de se conseguir um ano a mais na escolarização do aluno, na verdade foi retirado um ano da educação infantil, e isso de certa forma, acarretaria na desvinculação do ensino lúdico precocemente, pois a criança nesta fase ainda precisaria deste artifício para aprender. Já o ensino médio seria o lugar onde o individuo desenvolveria as suas habilidades para se preparar efetivamente para a sociedade, onde a formação profissional e a orientação para este meio seriam tidos como assuntos fundamentais para a complementação individual.

Além desta divisão, podemos notar que existem as modalidades do ensino básico. A EJA (educação de jovens e adultos) tem por finalidade educar de maneira precisa, jovens e adultos que não tiveram acesso à educação no tempo escolar regular. A educação profissional, por sua vez, pode estar vinculada ou não ao ensino médio. É uma forma de capacitar para o mundo do trabalho. Há grande embate sobre a real formação dos indivíduos submetidos a este meio, tendo em vista que esta formação é considerada muito técnica, não primando para o desenvolvimento social e individual, mas sim a uma lógica de mercado.  Já a educação especial é um caso à parte, por perpassar todas as etapas da escolarização do indivíduo. Aquela pessoa que precisa de um acompanhamento especializado vai possuir um atendimento voltado as suas especificidades, cuja finalidade desta modalidade de ensino é integrar este ser que é tido como diferente, na sociedade, que em outras épocas o excluiria.


CONCLUSÃO

 Concluo afirmando que muito mais que boas ações devemos ter consciência daquilo que envolve a educação, pois poderíamos achar que estamos fazendo parte dela sendo que na verdade não são abertas as possibilidades pra isso. Em última análise é preciso que os pais participem da vida escolar de seus filhos. Se eles não possuem tempo, nada impede que eles olhem os cadernos de seus filhos aos finais de semana, e responsabilizam a estes com o seu dever de estudar. Quanto a órgãos máximos como o conselho escolar, devemos nos recordar que este faz parte de uma gestão que tem por cerne a democracia, e já como na constituição brasileira diz que a educação deve ser democrática, então o faremos. Mas antes de tudo, precisamos fazer com que as pessoas se sintam atuantes, e não sujeitadas a um processo educacional (que sejam SUJEITOS ² agentes), e ai sim poderemos mudar tal situação. Para tanto as pessoas precisam se informar e conhecer sobre o que está acontecendo na vida escolar de seus filhos, para poderem questionar e perceber, para depois mudar a situação educacional no Brasil.


¹ Entendendo o sujeito como sendo aquele sujeitado ao controle e dependência de outro, sendo esta uma das caracterizações que Focault utiliza para designar sujeito.
²Faço menção à segunda concepção de sujeito exposta por Focault.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

BREVE REFLEXÃO SOBRE CURRÍCULO


A teorização sobre o currículo vai se revelar como fator importante nas discussões acerca da educação, em que vai estar presente a ideia de organização curricular hegemônica em certas localidades e em outras um pensamento mais neoliberal sobre o currículo. Desta forma podemos ver presente que há uma tensão entre as idéias, e que uma pode tratar mais da organização social como um todo, ou outra ainda numa ideia mais neoliberal. Neste contexto se fazem presente as leituras negociadas, que proporcionam diferentes interpretações sobre currículo.

O intuito presente nestas discussões é a tentativa de sanar os problemas gerados (novos e antigos), em que para os educadores na década de 70 era primordial entender o que é currículo na realidade (como se houvesse um monte de coisas determinadas que devessem ser trabalhadas, porém não havendo comunicação entre as áreas ). Podemos constatar a existência deste problema quando ouvimos de professores antigos e novos não ser necessário planejamento de suas aulas, pois já sabem o que devem ensinar como se ensinar fosse comparado a uma receita de bolo. Desta forma o professor não se atualiza e acaba não organizando uma aula que seja condizente com o tempo-espaço ao qual ele (parte integrante da educação) está inserido na realidade do aluno.

Mesmo assim o currículo vai se apresentar como sendo um campo vasto e heterogêneo, possuindo várias interpretações. Quando se fala em heterogeneidade estamos pensando em várias coisas que podem ser trabalhadas, o problema se encontra quando tentamos supri-lo colocando em seu lugar a homogeneidade. Quando efetuamos esta troca, podemos por último impor aos alunos a ideologia da cultura dominante, e não, fazer um paralelo coma cultura dos alunos. Desta forma a ideia de internacionalização do currículo entra como sendo um espaço onde, educadores do mundo todo trabalham numa nova releitura ou definição de currículo afim de que as discussões sobre raça, gênero, justiça social e sexualidade sejam melhores discutidos e trabalhados nos espaços escolares mediante a uma redefinição curricular. Pode ser notada uma preocupação na organização curricular tendo como objetivo uma educação que condiga com as necessidades educacionais presentes nos vários contextos escolares.

A déia de heterotropia também presente neste texto, tem como cerne a ideia de um lugar viável “porém parece se encontrar fora dos lugares convensionáis.” Pensando também na ideia de emplazamento (deve haver um porquê na escolha de um determinado texto afim de que ele provoque aquilo cujo papel lhe é designado. Desta forma podemos pensar que a educação deve sim trabalhar com textos,  por um lado ,e por outro,deve ser entendido pelos alunos. Ou seja é necessário no processo educacional a analise textual, e mais que isso,o entendimento do aluno sobre o  texto.

Concluo esta breve reflexão afirmando que em todas as concepções aqui mostradas, pensam o currículo de forma diferenciada. Como elas fazem esta reflexão, pode ser notada certa preocupação no que ensinar. Ou seja, a existência destas interpretações vão nos permitir pensar o currículo como sendo algo abrangente de certa forma, porém com particularidades diversas, onde para uns autores o currículo deveria tratar mais de temas tidos como tradicionais, onde a cultura tida como erudita seria considerada a melhor, em detrimento à  cultura do aluno. E quando aplicamos isso na sala de aula, estaremos negando a existência da cultura deles.

BREVE COMENTÁRIO SOBRE O TEXTO “NOTAS SOBRE O SABER DA EXPERIÊNCIA”


O intuito do autor espanhol é antes de tudo tentar pensar a educação sob o aspecto da experiência relacionada com sentido. Para tanto é preciso entender a experiência produzindo efeitos em um determinado ser, caso contrário poderíamos ter um monte de informações travestidas de experiência. Por isso devemos ver a importância das palavras, pois elas expressam ou nomeiam ações e pensamentos, e desta forma constituem pensamentos.

O primeiro aspecto relevante no texto é a distinção entre experiência e informação. Nas palavras do autor “a experiência nos toca”. E se assim o é, podemos pensá-la como parte da construção de um conhecimento real, onde a mera exposição dos fatos não será condicionante para o entendimento real, mas sim a própria experiência. Agora podemos ser críticos com a educação que estamos desenvolvendo com os nossos alunos, será essa uma educação informativa, ou experimental. Noto muitas vezes que temos medo do termo experimental, como se muitas vezes não soubéssemos o que estamos fazendo no espaço escolar, mas na realidade é outra coisa: proporcionar experiências. Como ainda estamos muito ligados como esta ideologia, continuamos com a ideia de que precisamos passar informações para os nossos alunos e desta forma mostramos a eles que VTD’s (verbos transitivos diretos), no português se resumem a esta nomenclatura, e são usados em frases que não condizem com algo, e posteriormente nunca mais serão usados. O espaço da experiência sob este aspecto seria o espaço da construção textual. Mas se não há a disponibilidade deste aluno desenvolver tal habilidade, não haverá experiência e sim um acúmulo de informações.

Outro aspecto interessante do texto é a crítica a sociedade de informação que viabiliza o periodismo. Quando a sociedade está acostumada a trabalhar muito com a informação, teremos como conseqüência a opinião formada sobre estas informações e a maneira de divulgar estas informações é a partir de periódicos. Com uma informação totalmente disseminada, o individuo acaba se tornando mero espectador, e ao invés de construir, discutir, planejar, organizar e entender a história, acaba por reproduzir uma opinião formada, e desta forma a discussão que vem junto com a experiência não será feita, por já se ter uma opinião formada. Deste modo teremos em última análise a formação de uma sociedade que não vai achar muito importante a formação de um pensamento crítico


sexta-feira, 23 de setembro de 2011

OBSERVAÇÃO

INTRODUÇÃO
As competências desenvolvidas na escola tanto de nível fundamental quanto de nível médio devem ser entendidas de formas diferenciadas.  Começo afirmando uma coisa tida como trivial, pois muitas vezes, nós enquanto educadores, cometemos erros terríveis quando usamos um mesmo plano de aula para a turma do último ano do ensino fundamental, e  para os alunos do primeiro ano do ensino médio.  Desta forma podemos nos perguntar como a relação aluno-professor pode ser estabelecida da melhor maneira possível e como esta questão pode estar relacionada com o desenvolvimento educacional do aluno (parece trivial novamente o que disse, mas noto que às vezes existe certa dificuldade em se fazer esta relação).
O que irei apresentar foi o que observei em duas escolas: uma de ensino fundamental – chamarei de escola A – e outra de ensino médio – chamarei de escola B (não citarei nomes ). Resolvi fazer esta observação em duas escolas porque ambas atendem indivíduos com diferenciadas idades e focam o currículo com objetivos diferenciados, visto que a matéria que irei desenvolver com os alunos é a de filosofia, e esta é obrigatória para alunos tanto do fundamental quanto do médio. Outro aspecto importante de ser mencionado é que a vida profissional dos educadores de ambas as escolas é completamente cheia, ou seja, eles não dispõem de muito tempo para planejamento de suas aulas (assim podemos nos perguntar até que ponto um professor conseguirá ser um bom professor para os seus alunos e como esta questão se reflete no momento de se relacionar com eles – é bom, ruim???).
A observação teve como caráter avaliativo três eixos temáticos:
a)      Aspectos gerais da escola: com a escola se apresenta no geral para os alunos e como ela está sendo inserida no cotidiano escolar deles (é só mais um lugar de encontro, ou podemos dizer que é uma instituição onde os alunos procuram uma relação com o saber concisa?)
b)      Como a comunidade escolar se envolve no cotidiano da instituição escola?
c)       A questão cultural é trabalhada de maneira fluente no contexto escolar? Até que ponto é valido ou não trabalhar a cultura dos alunos?
Desta forma, podemos ter um panorama geral daquilo tudo que iremos encontrar (ou não) dentro da escola pública num âmbito mais geral.

ESCOLA A
A escola A se encontra em um bairro de periferia da zona extremo-sul de Porto Alegre. Atende em torno de uns 800 alunos em dois turnos de funcionamento. A entrada para o turno da manhã ocorre às 7h e 30min, e o horário para o turno da tarde ocorre as 13h e 15min. O turno ao qual farei referência é o da manhã, pois é o horário que as crianças dos anos finais estão na escola.

A ENTRADA
Os alunos vão chegando de manhã, uns vêm brincando outros conversando, ou então, sonolentos (para eles é complicado o fato de terem que acordar cedo para irem estudar – é o horário ao qual deveriam estar dormindo para eles). A rotina deles começa na escola (vê-se claramente que há uma relação de companheirismo ) e isso tem como consequência o fato que as primeiras pessoas que eles vêm no turno da manha, muitas vezes, não são os familiares e sim os colegas e os professores, sendo notável um envolvimento maior com estes sujeitos que a própria família, visto que a  os pais destes alunos saem para trabalhar às seis e meia da manha, ou acordam mais tarde, ou ainda trabalham com escalas diferenciadas, inviabilizando o convívio direto.
Como estes alunos moram relativamente próximo à escola, eles vêm sozinhos caminhando pela estrada. O que é interessante neste rito é que a rua acaba virando o espaço pra eles se expressarem de tal maneira que chega muitas vezes a ser abusivo. Eles invadem o espaço dos carros, não respeitam aos conhecidos, põem apelidos e acabam de certa forma denigrindo a sua própria imagem. Desta forma podemos analisar que o ritual de ir à escola é uma forma de se libertar das regras da casa onde na maioria das vezes eles não participam da composição destas, e acabam por infringi-las por não saber o porquê de sua aplicabilidade no convívio familiar. Assim, desta forma se apresenta o rito inicial como uma forma de libertação de algo que não lhes pertence.
Quando chegam à escola percebem que o espaço de brincadeiras mudou. A brincadeira é um pouco mais sutil, ou seja, eles se dão ao trabalho de reordenar esta atividade, tendo em vista que se esta continuar da mesma forma que na rua, acaba virando em punição (coisa que não querem, pois os pais não admitem esse tipo de comportamento por se tratar de uma relação de obrigação: a do pai é dar condições de vida para o filho, e a do filho de estudar). O comportamento muda muito (mas não completo). A característica intrínseca de cada aluno
Como são alunos de sétima série, oitava ou sexta, eles não possuem mais a necessidade de se formar uma fila, e assim o professor os chama no pátio achando que todos vão subir de maneira educada (a professora vai à frente e os alunos atrás). Até que todos os alunos cheguem à sala demora em torno de uns 10 minutos. Assim inicia o primeiro período da aula.

O DECORRER DAS AULAS
A primeira aula da manhã de segunda feira da turma da oitava série é português. Eles não gostam muito desta matéria porque eles têm que decorar um monte de regrinhas e escrever o que pede o exercício (muitos tiveram a coragem de me dizer isso, com a professora ao lado). A aula começou, a professora cumprimentou os alunos e fez a chamada. Até o término da chamada, decorreram-se vinte minutos do período de 45 minutos. Era notável uma euforia contida dentro dos alunos,e uma vontade enorme de transgredir as regras da aula. Durante a chamada foram feitas 17 interrupções por parte da professora para mantê-los atentos (e se manter atenta) para não dar falta a nenhum aluno que não precisasse.
A aula começou, o assunto era objeto direto e indireto. Quando a professora começou a falar a turma parou por cinco minutos e a escutou. Não demorou muito para que as conversas paralelas tomassem conta da aula. Aparentando ser uma medida desesperadora, a professora começou a escrever no quadro o que eram os objetos diretos, indiretos, pra que serviam e como eram aplicados aos verbos ( os VTD’s, VTI’s e VTDI’s que já conhecemos muito bem). Continuando a escrever no quadro, a professora, a turma começa o falatório e a bagunça (um pouco contida). Repentinamente a professora interrompe o que estava fazendo e xinga aos alunos dizendo que isso o que ela está passando é importante para o ensino médio, que se acaso eles não souberem aquilo que ela está passando a eles, não entenderão nada no primeiro ano e consequentemente irão rodar.
Podemos ver que a professora possui certa preocupação no que diz respeito à continuidade dos estudos de seus alunos. O problema consiste no fato de que ela acaba não conseguindo mostrar a eles a real importância daquilo que ela está ensinando. Perguntei a alguns alunos se eles produziam textos em sala-de-aula, todos me disseram que não. Ai, podemos nos perguntar se vai ter alguma serventia a eles entender o que é verbo transitivo direto ou indireto se eles não praticam os seus aprendizados na hora de produzir um texto. Fica complicado a gente exigir compreensão de nossos alunos se a gente não consegue mostrar a eles a utilidade das coisas que estão aprendendo.
Bateu para o segundo período, um aluno entrou atrasado com a autorização da direção. Ele apresentou à professora o bilhete e se sentou. Ela continuou a aula. Neste segundo momento ela escreveu os exercícios no quadro e colocou a data da próxima prova. Todos os alunos ficaram apavorados, pois a prova era para a próxima semana.
Terminou a aula de português. Os alunos permaneceram na sala a espera do próximo professor (acho que a minha presença intimidou um pouco a relação que eles possuem com seus professores realmente). Mudaram de lugar, conversaram, trocaram de classes.A próxima aula era ciências. Os alunos gostavam mais desta aula que as outras. Antes do começo da aula perguntei a eles o porquê desta preferencia. Eles me disseram que o professor era divertido, que não passava muito conteúdo e que eles entendiam o que estava sendo proposto pelo educador. Assim desta forma começou a aula.
O professor entrou sério na sala-de-aula, colocou as suas coisas em cima da classe, separou o caderno de chamadas e começou a repetição do ritual. Foram feitas, durante a chamada, nove interrupções, com o mesmo intuito que a professora de português (foram menos). A chamada durou em torno de uns cinco minutos ou seis (não me recordo com exatidão). O assunto da aula era bebida alcoólica. O professor colocou no quadro uma espécie de roteiro do que ia ser discutido em aula:
1.       O que são bebidas alcoólicas
2.       Como as pessoas se embebedam
3.       O que o álcool causa
4.       Do que é feito
A aula iria ter uma interrupção: o recreio.
O professor começou a sua aula explicando que as bebidas alcoólicas são bebidas que causam dependência se acaso forem ingeridas em grande quantidade, que podem causar doenças graves (como cirrose), que o consumo era proibido para menores de idade e se caso os pais permitissem eles poderiam ser presos. Foi neste instante que surgiu a primeira manifestação da sala de aula:
-Mas professor, eu já bebi bebidas alcoólicas e não aconteceu nada aos meus pais.
O professor olhou sério para o aluno e perguntou:
-Eles te deixaram beber?
O aluno respondeu:
- Não.
-Alguém denunciou os teus pais?
-Não
Seriamente ele respondeu a manifestação do aluno:
- como eu havia dito antes pode ocorrer que os teus pais tenham que se explicar sim a polícia, mas o fato de tu teres bebido escondido deles e ninguém ter denunciado isso a polícia, foi por isso que os teus pais não foram indiciados por nada.
Deu para notar que a intervenção do aluno tinha um intuito um pouco malicioso pela forma que foi elaborada a pergunta. Durante a sua manifestação ele sorria com certo ar de deboche, tentando desconstruir a aula do professor.
Depois desta intervenção o professor continuou a explicar os malefícios do consumo em excesso, até que repentinamente uma menina perguntou – séria – se isso “mexia muito com a pessoa”. Foi neste instante que eu percebi o porquê que os alunos o achavam um bom professor. Ele realmente sanava as suas dúvidas de maneira direta, e não tediosa, mostrava que havia certas utilidades para aquilo que ele estava ensinando, no meio das explicações ele fazia algumas piadas que facilitavam o entendimento, de tal modo que os alunos anotavam algumas coisas quando o professor mandava.
Após o recreio era a continuação da aula. Foi neste exato momento que eu percebi o quanto o recreio desconstrói uma organização já pré-estabelecida. Os alunos voltaram muito agitados. O professor se sentou, reorganizou as suas coisas. Pediu silencio por dez minutos e colocou o último tópico no quadro que seria trabalhado:
Do que o álcool é feito.
Neste instante ele distribuiu uma cópia de um texto para cada aluno ler com cinco perguntas para serem respondidas. Eles se olharam, conversaram um pouco e foram fazendo aquilo que o professor propunha. Os alunos entregaram os seus trabalhos como estavam no final da aula e foram para a educação física.
Quem dava a aula de educação física era a própria professora de português. É certo: eles não gostavam da professora de português porque ela dava a aula de português. Mas gostavam da educação física porque ela realmente não dava a aula, e sim disponibilizava a bola para eles jogarem futebol (meninos), ou vôlei (meninas) – foram os alunos que disseraam isso.

Vê-se claramente que a relação com estes dois professores era totalmente diferenciada, ambos estavam realmente interessados em ensinar alguma coisa, mas o que realmente os distinguia era a maneira como eles passavam o conteudo.

 A VOLTA PARA CASA
Pode ser notada uma pressa incontrolável de chegar a casa. Parece que a escola está afugentando os alunos. As brincadeiras recomeçam e a relação se estreita novamente. A tarde é longa, a brincadeira e os deveres fora da escola passam a existir novamente.

CONSIDERAÇÕES SOBRE A ESCOLA DE ENSINO FUNDAMENTAL
Analisando esta turma durante o período de aula pode ser notado três coisas:
a)      Que eles são impacientes no que diz respeito ao aprendizado: eles querem entender tudo de forma rápida, porém não conseguem ter disciplina no momento de estudar ou de ouvir o professor;
b)      O professor muitas vezes não sabe como lidar com as situações que ocorrem no cotidiano escolar: não consegue focalizar a energia dos alunos, como também não organiza uma aula que seja atrativa;
c)       No caso do professor que consegue manter uma aula boa, acaba tendo que mudar a organização da aula por conta do recreio: não será o caso de se repensar qual seria a melhor forma de organizar os períodos de aula. O ideal neste caso seria, ao meu ver, que as aulas fossem organizadas de tal forma que o recreio não interrompa o desenvolvimento da aula e desta forma melhor viabilizar o entendimento do assunto proposto pelo professor.

ESCOLA B

A segunda escola é de ensino médio (somente) e atende a alunos de diversas partes da cidade de Porto Alegre. É uma escola tida como central, e por muito tempo foi considerada a melhor escola do estado. Sofreu muito em 2007 com a questão da reorganização das turmas no meio do ano letivo. Esta escola atende alunos nos três turnos, e estes possuem histórias de vida diferenciadas. Esta escola possui um histórico marcante no que diz respeito a lutas e conquistas (principalmente durante o período militar).
Muitos consideram a escola B um lugar perigoso atualmente, em que as “crianças não vão para estudar e sim para se drogar”. O preconceito existente acerca desta escola denigre não só a imagem da escola, mas sim a dos professores e também a dos alunos, gerando desta forma uma espécie de determinismo do meio aplicado ao ambiente escolar. Assim sendo, as coisas que se ouve e as coisas que de fato são, diferem totalmente entre si viabilizando desta forma, uma dupla formalização do ambiente escolar, em que uma sobressai à outra.
O espaço em frente à escola é formado por um coreto e uma quadra de esportes. No coreto se juntam várias pessoas como se fosse um ponto de encontro, e a noite torna-se a casa de vários moradores de rua. Os alunos durante os recreios e os intervalos se encontram ali para ouvirem música, conversar, se divertir, lanchar, trocar ideias e praticar esportes. Ao término das aulas, pode ser notada uma grande movimentação (uns esperam os colegas saírem, outros vão direto para as paradas de ônibus, ou vão a pé para as suas atividades no turno da tarde).
A ENTRADA
A escola possui um grande espaço interno e externo. O pátio da escola é grande o suficiente para comportar uma quadra de esporte poliesportiva, um campo de futebol e um ginásio. Quando os alunos chegam, eles não entram diretamente no pátio da escola para esperar o horário de entrada. Eles ficam no coreto em frente à escola ou na quadra de futebol na praça em frente ao colégio.Aos poucos vão chegando os alunos, conversas começam, perguntas sobre o que o professor está dando em aula surgem. Sons, vozes, conversas marcam o cotidiano escolar, e desta forma delimitam os tipos de amizades que surgem. Os grupos se formam, os gostos se afinam (os desgostos também) e começa outro dia na escola.

O DECORRER DAS AULAS
A primeira aula da quinta feira à tarde é física d. A professora chega, repete o mesmo ritual de colocar as coisas em cima da mesa, separar a chamada e começar a sua aula. O pessoal do terceiro ano à tarde é considerado um pouco mais “disciplinado” que o pessoal da manhã, por se tratar de alunos com a faixa etária um pouco avançada. O assunto a ser trabalhado era termodinâmica, ciclos de Carnot.
A professora entrou na sala-de-aulae a primeira reação dos alunos foi a de ficar quietos. Como era metade do trimestre, a professora havia pedido um trabalho sobre termômetros, e aquele dia era o prazo final da entrega (a avaliação consistia em duas provas e dois trabalhos). Muitos alunos não tinham feito o trabalho, e estavam fazendo na hora da aula, e a professora (ao invés de intervir e perguntar para os alunos o porquê que não fizeram isso em casa) continuou a dar a sua matéria como se isso não.
Muitas vezes, os alunos questionavam a atitude da professora de “despejar o conteúdo no quadro”, e em resposta a isso ela dizia não ser a mãe deles, e que a prova era pra semana que vem e que era para eles terem estudado, visto que eles tiveram muito tempo para estudar (ela justifica isso dizendo que a prova havia sido marcada há quase um mês atrás. Podemos agora nos perguntar como assim marcada? Como assim eles tiveram tempo para estudar? Aquela matéria que ela estava dando aos alunos foi assimilada por eles? Como vai ser o rendimento deles? Pode ser visto que ela mais estava preocupada com o tempo que lhe era disposto que com o fato dos seus alunos não estarem aprendendo).
O final do período se aproximava, e o desespero aumentava. Muitos dos que estavam fazendo o seu trabalho em sala-de-aula entregaram como estava os seus escritos, outros conseguiram terminar o que faltava. Neste exato momento me perguntei se a minha função como educadora seria essa: a de seguir um currículo e estabelecer prazos para que as coisas sejam entregues, sem me preocupar com o aprendizado dos meus alunos (tenho certeza que esta não é somente a minha função, mas isso é assunto para outro momento).
A troca de períodos ocorre. Os alunos podem sair da sala-de-aula para irem ao banheiro, ou beberem água. O próximo período é o de matemática. A aula começa com o mesmo ritual que o dos outros professores. O professor começa a chamada e desta vez, não é pedido o silêncio do aluno pelo educador, e sim ela é feita no meio da bagunça. Uns alunos que não ouviram a chamada reclamam ao professor este fato, e ficam indignados com este por não colocar presença para eles. A chamada é sagrada em todos os casos analisados (é a partir dela que se pode saber quem são os alunos ausentes, e assim encaminhar o problema para o serviço de orientação).
Os alunos indignados saem da aula e começa a exposição de conteúdos. O assunto do dia era geometria analítica. Os alunos que estavam na sala-de-aula, uns dormiam, outros copiavam, ou ainda saiam da aula e ficavam pelos corredores. Desta forma transcorreram os dois períodos de matemática. O recreio chegou, o radio foi ligado.
Durante o recreio a movimentação é muito diferente da escola de ensino fundamental. Os alunos podem ficar parados conversando, na biblioteca, na cancha de esportes jogando futebol ou ainda saem para pegar lanche. A rádio da escola é organizada pelo grêmio estudantil, e os alunos pedem as músicas que querem ouvir durante o recreio. Uns pedem funk outros curtem rock, outros gostam de pagode. O recreio se encerra, e começa o quarto período.
Aquele dia, por ventura, tinha aula de ensino religioso. A professora chegou colocou as coisas em cima da mesa, e ao invés de começar a chamada, ela começou a aula.Os alunos a cumprimentaram, ela escreveu no quadro o assunto do dia, e começou a falar. O tema escolhido era os problemas no mundo atual e como isso se refletia na ideia de religião. Esta foi a aula que eles conversaram sem serem sujeitados a críticas sobre o seu comportamento. A aula foi interessante de certa forma, e os alunos se interessaram na discussão.
O final da aula chegou, a troca de períodos ocorre novamente, e entra na sala-de-aula a professora de literatura. A aula desta transcorreu de maneira u tanto complicada. Os dois períodos finais que se seguiam, seriam períodos complicados, pois a professora enquanto autoridade não existia para eles. Eles a desrespeitavam, falavam em aula, eram grosseiros com ela e não faziam o que ela pedia. A professora perguntou a eles se eles haviam lido o livro que pedira. Somente dois alunos leram, o resto da turma começou a dar desculpas esfarrapadas dizendo que não tiveram tempo num tom de gozação.
A professora relevou o problema apresentado pelos alunos e continuou a sua aula, comentando o livro. “Memórias Póstumas de Brás Cubas” é um livro um tanto interessante, só que não pode ser visto como um meio de entendimento de um período literário. Ela continuou explicando a sua matéria até o final da aula com bagunça, barulho e muita conversa por parte dos alunos.

CONCLUSÂO
Nas duas escolas pouco foi discutido em sala-de- aula quem são estes alunos que frequentam a escola. Não foi levado em consideração o como estes alunos estão fazendo parte do cotidiano escolar, muito menos como se dá a relação deles com a escola, ou ainda feita uma investigação com a tentativa de entender o que acontece para que eles não se dispersassem. Em ambos os espaços escolares esteve presente a cobrança de prazos por parte dos professores para que os alunos conseguissem cumpri-los.
A percepção de que os alunos estavam simplesmente cumprindo a sua obrigação de receptores dos conteúdos era nítida. A questão agora era tentar entender se os professores enxergavam estes indivíduos como alunos, ou por ser essa a concepção de aluno (de meros receptores), os alunos tinham que se submeter a este tipo de organização escolar. Notei que muitas vezes a relação de poder era testada durante as aulas pelos alunos, e desta forma podemos nos perguntar que tipo de relação que se formou com aluno e professor? É d certa maneira saudável?
Outro aspecto relevante, é que os alunos estavam habituados em ter as coisas prontas. Eles não precisavam buscar as coisas (mesmo com aquele trabalho de física sobre termômetros, muitos copiaram o que estava escrito nos livros e entregaram a professora). Digo isso, pois me foi aparente o fato que os alunos não questionavam, não procuravam entender, e desta forma aceitavam – com imposição – aquilo que era proposto pelos professores. Desta forma podemos notar que a organização e mobilização fazem parte do contexto social fora da sala-de-aula, se refletindo de certa forma nas eleições do grêmio e de direção.
Assim podemos nos perguntar que tipo de alunos estamos formando? Pelo visto ainda não é do tipo crítico.
O professor aparece no contexto escolar como aquele que ensina os alunos o que eles têm que aprender. Na escola de ensino fundamental, na fala da professora, vê-se isso presente, pois eles precisavam daquela matéria para ingressarem no ensino médio. A questão não é essa a meu ver, a questão deveria tanger o fato de que a vida continua após a escola, e que para isso, os alunos deveriam estar preparados para viver em sociedade (de certa forma a educação colabora com isso).
Para tanto os professores deveriam estar preparados para isso. O problema consiste no fato de tentarmos entender se os professores têm condição para montar uma aula que seja interessante e que valorize os alunos (e a eles também) e que trabalhe com a concepção de que existe uma vida, e desta forma contextualizar a cultura do aluno no espaço escolar. Claro, falando assim até parece fácil. Temos que pensar que tudo isso faz parte de uma organização nova e uma nova estruturação da escola. Para tanto é preciso muita disciplina para que o objetivo seja alcançado de maneira produtiva e eficaz, visando ao rendimento do aluno de forma proveitosa para ele em sociedade.
Assim concluo afirmando que o papel do professor vai muito além do que o simples repositor de conteúdos, mas sim é por intermédio dele que o aluno descobre que há uma sociedade e que ele precisa se inserir nela. Para tanto é preciso ver o currículo de forma diferenciada, e não como um mero apontador do que tem que ser discutido e alcançado em sala-de-aula, e sim como uma forma de entender o processo de aprendizagem dos alunos.

sábado, 17 de setembro de 2011

POLÍTICAS DA EDUCAÇÃO BÁSICA

POLÍTICAS DA EDUCAÇÃO BÁSICA
DAIONE CAROLINE BALDUZZI PAVAN

INTRODUÇÃO

Os estudos sobre políticas da educação básica visam ao entendimento das ações executadas pelos governos (união, estado e município) para que a educação melhore. A questão da especificação do trabalho, bem como o tipo de educação que se quer para crianças, jovens e adultos entra nos debates como parte fundamental, pois a sociedade está passando por um momento delicado em todos os setores e por isso está sendo necessário discutir que educação se quer. Por isso é necessário lembrar que a política educacional é parte constituinte do período histórico e, portanto estará em movimento juntamente ao contexto histórico que está inserida.
A educação não poderia ser refém da ordem econômica vigente em dado período de tempo, mas não é isso que vem ocorrendo. Podemos perceber isso quando começamos a nos perguntar: “Qual educação queremos e qual a sua serventia?” Feito isso, estamos abrindo espaço para que a educação esteja em sérios apuros, pois uma vez admitido que esta deva satisfazer algo, então ela não precisará estar preocupada com a relação do conhecimento com a realidade social, e sim com a demanda econômica de dado período. Assim, vê-se que a educação será usada como meio para uma especificação qualquer, não desempenhando o papel que deveria prestar que é o de meio de adquirir conhecimento, de discutir e propor novas idéias para a construção de uma sociedade mais igualitária e justa. Assim podemos ver que uma escola que possui um ensino voltado a coisas técnicas vai ter como meta a profissionalização de seus alunos e não o conhecimento, o entendimento da sociedade, muito menos a conscientização de que as coisas não estão bem e que é preciso mudá-las.
O planejamento original da educação na década de 1980 visava, antes de qualquer coisa, a soberania nacional tendo em vista a autonomia democrática, a construção de um público, em que as pessoas poderiam opinar sobre os rumos que a sociedade deveria tomar. Isso não ocorreu como o pensado, pois durante as décadas de 1970 e 1980, um novo capitalismo acendia: o capitalismo neoliberal, onde o lucro visava mais que o bem-estar social. Quando o capitalismo neoliberal ficou conhecido em todo o mundo, coincidiu com a reabertura política e democrática brasileira após 26 anos, aproximadamente, de ditadura fazendo com que a educação sofresse influência deste sistema econômico. Então com este panorama, começa a ser pensada a educação não com uma ótica democrática e sim com uma ótica econômica, onde haverá uma desobrigação por parte do estado no que diz respeito à realização de políticas públicas, tendo como resultado as parcerias entre público e privado mediante as seguintes relações:
a)      Público não-estatal: quando as organizações privadas passam a gerir o espaço adquirido, onde o papel do estado será o de cobrador e no caso da escola, não será mais propriedade do estado. Isso começou quando as escolas, em meados de 1994, foram obrigadas a criar um CNPJ para receber as verbas que o governo repassava com o Programa Dinheiro Direto na Escola (PDDE), tornando-se autônomas em certo sentido – sendo públicas e regidas por direito privado (PERONI 2009).
b)      Público-privado: direção de propriedade continua estatal, mas com lógica de mercado, tendo a idéia de que o que é privado é bom e o que é público é ruim. Onde o privado determinará a atuação do aluno do professor e da direção, não levando em conta a espaço, o histórico da comunidade muito menos a carga cultural de cada aluno.
c)      Terceira via: defende uma reforma estatal, baseando o parâmetro de qualidade no mercado, onde a administração gerencial será usada (inclusive no espaço escolar) nos setores públicos em que a sociedade desempenhará tarefas de mercado.
Assim vê-se que as escolas serão avaliadas, gerenciadas e cobradas de acordo com as regras deste ciclo econômico. O problema é que órgão público não deveria ter estes atributos, pois não é empresa, não precisa concorrer para ser melhor que as outras empresas e por isso não deve ser uma forma de empresas lucrarem. Visto isso podemos notar que o grande desafio da educação democrática nos dias de hoje é continuar a ser democrática visando, portanto, à integração da sociedade com o meio escolar, e antes de tudo trabalhar os conceitos de cidadania e porque não, democracia.

COMO A EDUCAÇÃO FOI SE DESENVOLVENDO AO LONGO DO TEMPO
Desde o início da constituição do Brasil, sofremos muito com a discriminação educacional decorrente da discriminação social. Esta discriminação educacional gera um antagonismo no que diz respeito ao tipo de educação que se tem, onde o rico pagará para o seu filho ter uma educação de boa qualidade e o pobre dependerá de um sistema publico cujas escolas estarão por muitas vezes, com a estrutura sucateada. Podemos analisar que o sistema educacional Brasileiro foi se moldando de tal forma, em que não é pensado como uma população de baixa renda pode ter uma educação gratuita e de qualidade, por isso é necessária uma mudança que vise a todos estes aspectos, onde haja uma tentativa efetiva de tentar conter esta disparidade.
Quando o Brasil começou a ser povoado, a educação que se tinha presente durante o período de 1530 a aproximadamente 1630, era a educação Jesuítica. Esta por sua vez tinha como objetivo tornar os índios cristãos, desvalorizando os ensinamentos de séculos para impor outra cultura e outro modo de vida. Desde então o processo educacional nunca mais seria o mesmo. Este desrespeito com o ensinamento e a cultura indígenas desencadeou uma série de acontecimentos catastróficos referentes à formação da sociedade brasileira, em que o índio será marginalizado e muitas vezes não considerado gente (serão considerados atrasados – Hordas Selvagens – perante a lei de terras, posteriormente). Outro fator que agravou o desenvolvimento da sociedade brasileira foi o escravismo, pois um reinado baseado na mão de obra escrava não era livre para gerar certa economia interna, muito menos para se formar uma sociedade em que o principal foco seria a educação. Mesmo assim o império termina e deixa um legado de leis um tanto contraditórias:
a)      Reconhece como direito a instrução primária gratuita, porém não tinha escolas espalhadas que atendessem a demanda da população;
b)      Educação somente para ingênuos (nascidos de pais brancos no país) e libertos (escravos alforriados) – não reconhece, portanto que os escravos sejam cidadãos;
c)      A lei de terras que determinava o aldeamento dos índios para catequese, ou seja, para receberem uma cultura que não era a deles e assim serem obrigados a seguirem uma religião, sendo chamados de hostis;
d)      Reconhecimento da escravidão perante lei a que abole açoite.
Assim com o final do império, o Brasil passou por dois golpes: um que retirou do poder o Mal. Deodoro da Fonseca e outro que depôs o Mal. Floriano Peixoto. Assim entramos no período denominado república velha onde o papel da educação não era muito definido, servindo, portanto, aos interesses econômicos deste seleto grupo de governantes.
Com a revolução de trinta, vê-se não só a necessidade de qualificar o profissional, bem como expandir a educação aos brasileiros. E é na constituição de 1934 que é falado pela primeira vez em plano nacional de educação e a disponibilidade de certo percentual das verbas da união para a educação. Porém o estado não se responsabilizaria pela disponibilidade de cursos posteriores ao primário ficando a cargo dos estados a disponibilidade do curso secundário (cuja entrada era via processo seletivo) e de faculdades. Quando começa a se pensar uma educação, ocorre o golpe de 37, mais conhecido como estado novo. Tendo caráter organicista, hierárquico e elitista, contradiz totalmente o primeiro mandato de Vargas, pois mesmo continuando com a idéia de que a união deve suprir o ensino primário, vai afirmar também que as pessoas menos afortunadas podem continuar os estudos em institutos profissionalizantes, acarretando uma educação diferencial por classes, enraizando profundamente a estratificação social.
Já em 1961, durante o governo de João Goulart, é aprovada uma nova Lei de Diretrizes e Bases para a educação, em que a lista de isentos à educação era extremamente dissociadora:
a)      Não obriga a população pobre a freqüentar uma escola, bem como os portadores de necessidades especiais;
b)      Não é questionada a obrigatoriedade do estado de expandir o ensino básico de qualidade.
Com a constituição de 1967, no período da ditadura militar, é feita uma nova constituição, em que se prevê a ampliação do ensino primário de quatro para oito anos. Mesmo assim não previa a obrigatoriedade do curso e sim a determinação de faixa-etária. Com a demanda de expansão na educação decorrente do êxodo rural, os educadores foram sendo chamados a fim de ocuparem seus cargos, porém não havia a preocupação da formação destes educadores, acarretando no processo de sucateamento da educação no país.
Com o término da ditadura militar e a abertura política, começam a serem pensadas quais são as prioridades e o que deve ser assegurado por lei para que tenhamos uma educação democrática e de qualidade. Porém, mesmo após 22 anos, aproximadamente, da promulgação da constituição da república, temos grandes problemas no que diz respeito à execução da lei de Diretrizes e Bases, pois tivemos um período muito delicado de reorganização político, juntamente com o fator economia empregado à educação pública, bem como no setor privado.

Podemos notar então que a educação brasileira sempre esteve dependente de uma estratificação, cujo intento é dissociar e desigualar a sociedade buscando a manutenção de um sistema de governo baseado em atos falhos (isso aconteceu com o Império, quando utilizou de mão-de-obra escrava; em políticas de separação para detenção do poder, quando utilizou da influência de certo grupo para governar o país por deter a produção; e em governo ditatorial, quando tentou manter o poder a todo o custo). Concluo afirmando que em todos os casos tivemos a educação ministrada pelos interesses econômicos, e por isso reafirmo que a educação em hipótese alguma deve satisfazer uma dada situação econômica, pois não teremos uma situação de aprendizado e sim de padronização de pessoas para estarem em um espaço de trabalho.

INSTRUMENTOS AVALIATIVOS AVALIAM?
O intuito de um processo avaliativo é antes de tudo avaliar. O que vem ocorrendo no Brasil é uma tentativa de se criar um instrumento que realmente avalie. Com o surgimento do capitalismo neoliberal, vem a idéia de que o estado deve ser mínimo para a sociedade e máximo para o capital. Isso acaba se refletindo nos sistemas avaliativos, pois em nenhum deles será respeitado o processo de aprendizagem individual dos estudantes, muito menos as condições que estes alunos estão submetidos.
A idéia de uma avaliação de longa escala no país vai abrir espaço para que o mercado dite regras, onde o estado terá o papel de coordenador ou financiador da educação, não sendo responsável pela implantação de políticas públicas. Sendo assim, o estado terá por vez o papel de avaliador e indutor de uma qualidade, em que não são analisadas as condições da comunidade escolar, bem como o aluno individual, mas sim um levantamento numérico, em que a escola que foi mais bem sucedida será bem melhor vista.
Comecemos a analisar os programas:
1.      SAEB
Realizado trienalmente, avalia crianças do ensino fundamental (do 5° e 9° anos) e adolescente do ensino médio (3°ano). Tem caráter amostral, ou seja, algumas crianças ou adolescentes fazem esta avaliação. É avaliado somente as competências na área de português e matemática, deixando as outras disciplinas sem amostra. Vê-se, portanto, que este sistema é incompleto por não trabalhar as áreas (pelo menos para os alunos do 9° ano do ensino fundamental e do 3° ano do ensino médio) da geografia, história, biologia, química, física, sociologia, etc. A aplicação das provas ocorre em áreas urbanas e rurais.
2.      PROVA BRASIL
Tem como objetivo analisar como anda a educação de nível fundamental nas áreas de português e matemática, SOMENTE. Tendo caráter censitário vai avaliar somente turmas do 5° ano e do 9° ano do ensino fundamental. É realizada por todos os alunos (destes anos) da escola participante e como todas as escolas de ensino fundamental da área urbana fazem, fica mais fácil avaliar a educação para o ensino fundamental.
CONSIDERAÇÕES SOBRE AS DUAS PROVAS
a)      Ambas visam o diagnostico em larga escala;
b)      As provas e os questionários são padronizados, não respeitando o aprendizado de cada região, comunidade, muito menos as condições de vida que aquela comunidade onde está inserido o ambiente escolar possui;
c)      Somente português e matemática serão avaliados, como se não existisse as outras matérias e até mesmo a própria questão da interdisciplinaridade;
d)      O questionário vai servir como um caracterizador do aluno ou da escola. Não vai ser levado em consideração como se dará a evolução do conhecimento de dado aluno;

3.      PROVINHA BRASIL
A Provinha Brasil tem o intuito de avaliar o processo de aprendizado de cada aluno pelo professor. É baseado nos três eixos apresentados na “Matriz de referência Para Avaliação da Alfabetização e Letramento Iniciais” :
a)      Apropriação do sistema de escrita – mostra se o aluno identifica as letras, bem como as sílabas,se diferencia letras, sinais gráficos e números e se estabelece relações entre o que é ouvido e o que é escrito;
b)      Leitura – avalia se o aluno sabe ler palavras, interpretação de textos, se sabe antecipar o assunto do texto de acordo com o título e se consegue estabelecer as finalidades de tal leitura;
c)      Escrita – avalia se a criança consegue escrever palavras frases e textos

São realizadas duas provas duas vezes ao ano no 2° ano de escolaridade (geralmente nos meses de abril e de novembro).  A adesão é feita de maneira espontânea pelo professor.

4.      ENEM
Surgiu com a idéia de analisar o ensino médio com base na matriz de competências que dizem respeito ao término do ensino médio. A prova do ENEM é caracterizada por conter questões que avaliam a capacidade do aluno de estabelecer relações entre as coisas estudadas com o cotidiano. Não tem caráter obrigatório, e por isso não é uma boa forma de diagnosticar os problemas da educação a nível médio. Ultimamente o ENEM tem papel fundamental para se entrar em uma universidade, pois com a nota adquirida, o aluno pode ingressar nos cursos de ensino superior, sem prestar vestibular na rede privada pelo programa Prouni (universidade para todos) ou na rede pública pelo SISU (Sistema de Seleção unificado).  Outro papel que é atribuído ao ENEM é o de certificação de término do ensino médio. Podemos perceber que o ENEM está totalmente descaracterizado.

5.      ENCCEJA
Foi criado para certificar e avaliar os conhecimentos dos jovens e adultos do EJA, com o intuito de se ter um indicador qualitativo para que melhorias possam ser aplicadas ao ensino de jovens e adultos. Atinge as pessoas que não tiveram a possibilidade de estudar no tempo regular (quando crianças e adolescentes), tendo adesão voluntária e individual. Assim pode ser perguntado como se dará esta avaliação, pois não terá caráter obrigatório em que a amostra adquirida com a prova não condissera com a realidade no Brasil, muito menos com a realidade de cada estado do País.
Concluo, portanto, que os sistemas avaliativos são falhos quando visam certas especificidades a que estão dispostos. O SAEB, e a prova Brasil não atendem a todas as crianças ou adolescentes do país, pois um tem caráter censitário e o outro tem caráter amostral, muito menos avaliam as outras matérias. No caso do ENEM, fica esse impasse: o que o ENEM vai analisar? É um sistema avaliativo, ou uma maneira de ingressar no ensino superior, ou uma forma de terminar o ensino médio? Fica muito complicado discutir uma educação de qualidade no momento em que se têm sistemas avaliativos que não avaliam de acordo com o seu propósito, muito menos não leva em consideração o processo evolutivo do conhecimento que cada aluno terá muito menos as condições em que estão submetidos a comunidade, a escola ou a família em que ele estará inserido.

GESTÃO ESCOLAR: EMPRESARIAL OU DEMOCRÁTICA?
Estamos inseridos em um período em que tudo o que interessa é a opinião do mercado. Isso acaba moldando a educação que temos hoje e acaba fugindo da idéia de educação democrática proposto na Constituição de 1988. Assim podemos nos perguntar que educação é essa que temos? Os exames anteriormente postos refletem muito bem essa idéia de que o mercado deve estar presente na educação, pois todos eles são produzidos por empresas privadas que visam lucros. Daí vem a seguinte pergunta: Por que esta idéia de mercado?
A concepção de gestão escolar tem como objetivo garantir certa qualidade da educação. O problema consiste no fato de usarmos o padrão qualitativo empresarial para classificar os problemas educacionais e apontar os culpados, visto que isso não vai resolver os problemas educacionais que estamos vivenciando. O que pode ser visto é que o nosso sistema de ensino se baseia nos parâmetros mercadológicos, e assim comete tais falhas. Como estes parâmetros dizem que a escola sendo pública (como qualquer outro setor público entraria da mesma forma no mesmo pensamento) é ineficaz, compete então perguntar que tipo de eficácia se está tratando, Visto que estamos falando de escolas e não de empresas.
A constituição da educação tal como se tem, teve inicio na década de 1990 quando ouve o corte orçamentário. Dali pra cá, criou-se a idéia de que os diretores deveriam se contentar com a pouca verba recebida, e assim saber administrar este dinheiro. Foi criado, portanto, a idéia de que o gestor escolar é aquele que sabe administrar com poucos recursos o ambiente escolar baseando-se na idéia de mercado quando explicita as competências do ambiente escolar. Assim podemos ver que se constituiu o gerencialismo escolar, em que a eficácia será o cerne da concepção de educação. Podemos notar que gerencialismo e Gestão democrática divergem em vários aspectos:
a)      O gerencialismo vai se preocupar em padronizar. Já a educação democrática terá como cerne a não dissociabilidade da técnica e da prática visando à união delas, em que a técnica se submeterá “às dimensões político-pedagógicas”;
b)      A figura do diretor será marcante para o gerencialismo, pois é através dele que as coisas são feitas, não passando pela comunidade, como é o caso da gestão democrática;
c)      O plano político-pedagógico da gestão democrática será discutido em conjunto com a comunidade escolar, em que esta estará preocupada com os resultados e será responsabilizada por eles. Já o gerencialismo não prevê esta participação efetiva da comunidade escolar e sim um envolvimento de cunho superficial em que a responsabilidade vai sobre cair nos professores e diretores, onde haverá o culpado pelo fracasso;
d)      A educação democrática, por sua vez, vai buscar a qualidade, mas com medidas efetivas, onde haja a valorização do docente com formação e financiamento, “autonomia e gestão democrática”. Já a educação gerencialista visa atingir metas de eficiência a partir de dados quantitativos, e por eles dizer que a educação deve ser mudada viabilizando a competição entre escolas.
Assim podemos ver que a educação está sofrendo muito com o que diz respeito a esta questão, pois está muito enraizada a concepção de que a educação deve servir para formar mão-de-obra para o mercado de trabalho. Concluo, afirmando que a nossa educação está muito deficitária no que tange a educação democrática, pois a lógica de mercado infelizmente ainda rege a nossa educação. Isso deve mudar e para tanto deve ser pensada uma ação efetiva que resolva este nosso problema, pois se continuarmos assim a educação terá cada vez mais por finalidade a especificação para o trabalho.
Trabalho apresentado na disciplina de politicas da educação básica.